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Vorcaro influenciava reportagens do Metrópoles, aponta investigação

Vorcaro influenciava reportagens do Metrópoles, aponta investigação

Mensagens extraídas pela PF indicam que Daniel Vorcaro recebeu reportagens antecipadas do Metrópoles e conseguiu mudanças em publicações.

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Luis Gomes
16 de outubro de 2026
5 min de leitura
Brasil

O empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, recebeu antecipadamente reportagens do portal Metrópoles e conseguiu influenciar alterações em publicações relacionadas a seus negócios, segundo levantamento divulgado pelo UOL nesta quinta-feira (15). As informações têm como base mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do banqueiro, que registram solicitações de mudanças em textos jornalísticos e pedidos relacionados à cobertura de determinados assuntos.

De acordo com a apuração, pelo menos 14 reportagens foram encaminhadas a Vorcaro antes de serem publicadas. Desse total, 11 passaram por alterações após solicitações do empresário. As conversas também indicam que duas matérias foram publicadas a pedido dele.

A interlocutora direta do banqueiro era Lilian Tahan, CEO do Metrópoles, que enviava conteúdos para avaliação e recebia sugestões de mudanças. A troca de mensagens ocorreu durante o período em que o Banco Master mantinha contratos publicitários com valores milionários junto ao portal.

Procurada pelo UOL, Lilian afirmou que o envio antecipado de textos fazia parte de uma prática de checagem de informações com fontes relevantes. Ela negou que os contratos comerciais do banco tenham influenciado a cobertura jornalística.

Banco Master negociou contrato publicitário de R$ 20 milhões

A aproximação entre Daniel Vorcaro e a direção do Metrópoles começou em maio de 2024, quando Guilherme Barros, então assessor de imprensa do Banco Master, promoveu um encontro entre o empresário e Lilian Tahan.

Em mensagens obtidas pela Polícia Federal, Barros relatou que a executiva havia gostado da reunião e sugeriu que ela própria aproximasse Vorcaro de Luiz Estevão, ex-senador e proprietário do portal.

No mês seguinte, o Banco Master realizou um pagamento de R$ 1 milhão ao Metrópoles. Em julho, foram acertados outros R$ 900 mil para projetos de educação financeira relacionados a empresas do grupo.

As negociações avançaram em novembro de 2024, quando foi firmado um contrato publicitário de R$ 20 milhões. Segundo as mensagens analisadas pelo UOL, o valor foi pago em parcelas ao longo de 2025.

A existência do contrato ganhou relevância diante dos registros de conversas que mostram Vorcaro recebendo reportagens antecipadamente e solicitando mudanças em conteúdos relacionados ao banco e a outros assuntos de seu interesse.

Mensagens registram pedidos de alteração em reportagens

Um dos episódios identificados ocorreu em abril de 2025, durante a preparação de uma reportagem sobre uma suposta proposta de compra de ativos do Banco Master pelo BTG Pactual por R$ 1.

Vorcaro contestou a informação e afirmou que a proposta nunca havia existido. Em resposta, Lilian informou que o conteúdo tinha sido retirado.

Em outra ocasião, a CEO encaminhou ao empresário uma reportagem sobre a venda de ativos do Master ao BTG Pactual. Vorcaro solicitou que uma referência à empresa Hapvida fosse removida, e a alteração foi realizada.

As conversas também mostram que o banqueiro recebeu antecipadamente um perfil jornalístico sobre ele próprio. Na ocasião, Lilian informou que aguardaria uma conversa com Vorcaro antes de publicar o material.

Empresário também sugeriu mudanças em conteúdos sobre o Banco Central

A influência apontada pelo levantamento não se restringia às reportagens diretamente relacionadas ao Banco Master.

Em agosto de 2025, Vorcaro recebeu antecipadamente uma entrevista com Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central. O conteúdo mencionava Renato Gomes, diretor da instituição que participou da análise da proposta de aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB).

Vorcaro sugeriu reduzir as referências a Gomes e abordar o assunto em outra reportagem. Segundo a apuração do UOL, a alteração foi feita.

Posteriormente, Lilian encaminhou ao empresário um perfil sobre o diretor do Banco Central. Vorcaro pediu a retirada de uma referência à possível falência do Master e sugeriu incluir informações sobre divergências internas na instituição. As solicitações também teriam sido atendidas.

Renato Gomes havia se posicionado contra a operação envolvendo o Banco Master e o BRB, que acabou não sendo concretizada.

Vorcaro pediu redução de cobertura sobre crítico do banco

Outro episódio registrado nas mensagens envolve Ricardo Cappelli, político que criticava a proposta de compra do Banco Master pelo BRB e se apresentava como pré-candidato da oposição ao governo do Distrito Federal.

Em agosto de 2025, Vorcaro pediu a Lilian Tahan que o portal reduzisse temporariamente a cobertura sobre Cappelli. A executiva respondeu: “Deixa comigo”.

Segundo o levantamento, as mensagens registram o pedido e a resposta da CEO, mas não demonstram, isoladamente, quais publicações deixaram de ser produzidas ou divulgadas em consequência da solicitação.

O UOL também identificou conversas sobre reportagens relacionadas à possível venda do Banco Master à Fictor, em novembro de 2025, pouco antes da prisão de Vorcaro.

CEO do Metrópoles nega influência comercial na cobertura

Em resposta ao UOL, Lilian Tahan negou que o contrato publicitário do Banco Master tivesse relação com as decisões editoriais do portal. A executiva argumentou que o Metrópoles também publicou reportagens que expunham problemas envolvendo negócios e empresas associados a Vorcaro.

Sobre o envio antecipado de textos, afirmou que consultar fontes para verificar informações e obter contexto é uma prática adotada com representantes dos setores empresarial, político e do Judiciário.

A CEO também justificou a cobertura sobre Renato Gomes, afirmando que o diretor do Banco Central havia se tornado uma figura relevante no assunto por sua posição contrária à aquisição do Master pelo BRB.

Em relação às críticas de Ricardo Cappelli, Lilian declarou que Luiz Estevão era contrário à operação e havia fornecido ao político análises que questionavam sua viabilidade.

As explicações da executiva contestam a existência de uma relação entre os pagamentos publicitários e as decisões editoriais. Por outro lado, as mensagens descritas na apuração do UOL registram solicitações de alterações feitas por Vorcaro e mudanças realizadas pelo portal.

O caso coloca em discussão a relação entre contratos comerciais e independência editorial, diante dos registros de comunicação entre o empresário e a direção do veículo de comunicação.

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Última atualização: 16/10/2026