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TikTok pode ter coletado dados de 20% das crianças no Brasil

TikTok pode ter coletado dados de 20% das crianças no Brasil

ANPD estima que TikTok pode ter coletado dados de 20% das crianças brasileiras e aplica multa de R$ 153,7 milhões à plataforma.

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Luis Gomes
26 de agosto de 2026
5 min de leitura
Brasil

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) estima que o TikTok pode ter coletado dados pessoais de cerca de 20% das crianças brasileiras em um período de um ano. O cálculo foi feito durante a investigação que resultou na multa de R$ 153,7 milhões aplicada à plataforma nesta terça-feira (25). A decisão ainda cabe recurso.

A estimativa foi baseada em informações fornecidas pela própria ByteDance, controladora do TikTok. Segundo a empresa, 7,75 milhões de contas de crianças foram removidas no Brasil entre outubro de 2022 e setembro de 2023.

A ANPD comparou esse número com a estimativa de 43 milhões de crianças no país, calculada a partir do Censo 2022. Para a agência, o volume de contas removidas evidencia a fragilidade do mecanismo utilizado pela plataforma para impedir o acesso de menores de idade.

A agência, porém, ressalta que o número pode ser ainda maior, pois não foi possível avaliar de forma robusta a eficácia dos mecanismos usados pelo TikTok. Dessa forma, outras crianças podem não ter sido identificadas ou removidas.

TikTok contesta multa aplicada pela ANPD

Em nota, o TikTok informou que avalia as medidas cabíveis contra a sanção. A plataforma afirmou que mantém diálogo com a ANPD há cinco anos sobre a segurança de crianças e adolescentes, que considera uma prioridade.

Segundo a empresa, esse diálogo resultou em um plano apresentado pelo TikTok e aprovado pela agência em 2025.

A plataforma também afirmou que a multa se refere a um período anterior, de 2021, e que não contempla as ações previstas no plano nem as medidas implementadas voluntariamente desde então.

Crianças barradas ainda podiam acessar o TikTok

A fiscalização identificou que o problema não estava restrito às crianças que conseguiam criar contas na plataforma.

Mesmo sem cadastro, os usuários podiam acessar o principal feed da rede social, enquanto o TikTok coletava informações sobre a utilização do serviço e personalizava o conteúdo exibido.

Uma das principais preocupações da ANPD foi justamente a existência desse acesso sem cadastro.

O TikTok utilizava o mecanismo chamado “Age Gate”, baseado principalmente na idade informada pelo próprio usuário. A ferramenta tinha como objetivo impedir que crianças criassem contas.

Segundo a fiscalização, no entanto, impedir o cadastro não significava impedir o acesso à plataforma. Mesmo sem uma conta, era possível continuar assistindo aos vídeos pelo feed “Para Você”.

A ANPD considerou problemático o fato de o TikTok não conseguir determinar a idade de quem acessava o feed sem cadastro. Sem essa informação, a plataforma aplicava a mesma experiência a usuários de diferentes idades.

Além disso, o feed sem cadastro não era uma versão limitada do aplicativo. De acordo com a nota técnica, o usuário continuava tendo acesso à principal experiência da plataforma, baseada no sistema de recomendação de vídeos.

Plataforma coletava dados de usuários sem cadastro

A investigação também detalhou as informações coletadas de pessoas que não haviam criado uma conta.

Segundo dados apresentados pelo TikTok, eram registrados dados relacionados à utilização do serviço, incluindo vídeos assistidos, hashtags, país, fuso horário, configurações e tipo de dispositivo.

A plataforma também registrava tentativas de utilização de recursos como curtidas e compartilhamentos.

Para a ANPD, esse conjunto de informações permitia personalizar o conteúdo apresentado no feed.

A ByteDance argumentou que o sistema realizava cálculos para identificar quais conteúdos seriam mais relevantes, mas afirmou que isso não significava necessariamente a criação de perfis dos usuários.

A área técnica da ANPD discordou. Na avaliação da fiscalização, a personalização baseada nos dados coletados caracteriza a formação de perfis comportamentais, inclusive de crianças e adolescentes.

ANPD questiona uso dos dados após exclusão das contas

A fiscalização também analisou o que poderia acontecer com os dados das crianças depois da remoção das contas.

A agência questionou a empresa sobre a possibilidade de informações de menores continuarem sendo utilizadas por parceiros comerciais após o banimento.

Segundo a avaliação registrada na nota técnica, havia preocupação com a possibilidade de dados de crianças terem sido coletados, utilizados para formação de perfis e compartilhados com parceiros comerciais antes da exclusão das contas.

A ANPD considerou que a empresa não havia apresentado uma estratégia suficiente para reduzir os impactos desse compartilhamento.

Agência rejeita autorização automática dos responsáveis

A fiscalização também envolveu uma discussão sobre o papel dos responsáveis por crianças e adolescentes no uso da plataforma.

Em determinado momento, o TikTok indicou que pretendia apresentar aos adolescentes uma tela informando sobre a necessidade de assistência ou representação dos responsáveis.

Posteriormente, a empresa passou a defender que a legislação brasileira não exigiria autorização explícita dos pais para todas as atividades realizadas por adolescentes no ambiente digital.

A ANPD rejeitou a ideia de que a simples utilização da plataforma ou a aceitação dos termos de serviço pudesse representar automaticamente uma autorização dos responsáveis.

Com isso, o órgão determinou que a empresa deveria apresentar mecanismos capazes de comprovar a representação ou assistência dos responsáveis nos casos em que isso fosse exigido.

Investigação contra TikTok começou em 2021

A sanção aplicada nesta terça-feira é resultado de uma investigação iniciada em março de 2021.

Inicialmente, a ANPD adotou uma estratégia responsiva, buscando fazer com que a empresa corrigisse as irregularidades antes da aplicação de uma punição.

Durante a fiscalização, porém, a área técnica registrou críticas às respostas apresentadas pela ByteDance. Em alguns momentos, a agência considerou que as informações fornecidas eram genéricas e não respondiam especificamente às questões apresentadas pelos fiscais.

A decisão publicada nesta terça transformou as conclusões da fiscalização em sanção. Além da multa de R$ 153,7 milhões, a ANPD determinou a eliminação de dados coletados irregularmente e aprovou um plano de conformidade para modificar a forma como o TikTok lida com crianças e adolescentes.

Entre as mudanças estão configurações de privacidade mais restritivas para menores de 16 anos, reforço da supervisão parental e filtros de conteúdo mais rigorosos.

No feed sem cadastro, as alterações serão ainda mais amplas. O TikTok deverá suspender anúncios no Brasil, reduzir a coleta de dados, limitar a personalização, impedir lives, mensagens diretas e interações sociais e restringir o conteúdo a material considerado adequado para todas as idades.

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Última atualização: 26/08/2026