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Sarampo pode causar “amnésia imunológica” após infecção

Sarampo pode causar “amnésia imunológica” após infecção

Infecção pelo sarampo pode apagar parte da memória imunológica e reduzir a proteção contra doenças já enfrentadas pelo organismo.

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Luis Gomes
21 de agosto de 2026
4 min de leitura
Brasil

Imagine o sistema imunológico como uma biblioteca que guarda informações sobre as infecções enfrentadas pelo organismo. Após o sarampo, parte dessas informações pode ser perdida. É o que especialistas chamam de amnésia imunológica, fenômeno que pode reduzir a capacidade de defesa contra microrganismos aos quais a pessoa já havia sido exposta.

A bióloga Patrícia Rosa Vanderborght, responsável pelo setor de imunização humana do Richet Medicina e Diagnóstico da Rede D'Or, explica que o vírus do sarampo pode atingir células importantes para a memória imunológica e reduzir parte do repertório de anticorpos.

Como funciona a amnésia imunológica

Segundo Vanderborght, o organismo guarda memórias dos microrganismos que já encontrou e consegue produzir anticorpos novamente quando ocorre uma nova exposição.

No caso do sarampo, porém, o vírus pode atingir células relacionadas a essa memória. Com isso, parte da proteção adquirida anteriormente pode ser perdida.

Um grupo de cientistas de Harvard acompanhou crianças não vacinadas antes e depois da infecção pelo sarampo. Segundo os pesquisadores, a doença eliminou entre 11% e 73% do repertório de anticorpos preexistentes, dependendo do paciente.

O estudo foi publicado na revista Science. Outro trabalho, divulgado na Science Immunology, identificou alterações duradouras no repertório de células B de memória após a infecção.

Proteção contra o sarampo aumenta após a infecção

Embora a infecção possa reduzir parte da memória imunológica, a imunidade contra o próprio sarampo se torna robusta.

Jessica Fernandes Ramos, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia e médica do Núcleo de Infectologia do Hospital Sírio-Libanês, explica que a quantidade de células de defesa pode voltar ao normal relativamente rápido depois da recuperação, mas isso não significa que todo o repertório anterior tenha sido recuperado.

A especialista afirma que o organismo passa a produzir células capazes de reconhecer o vírus do sarampo, enquanto pode apresentar redução na capacidade de reconhecer outros microrganismos que já haviam sido encontrados anteriormente.

Sarampo apresenta quatro períodos

O sarampo é uma doença causada por um vírus e transmitida por via respiratória. Entre os sintomas mais comuns estão febre alta, manchas vermelhas pelo corpo, conjuntivite, coriza, mal-estar e tosse seca.

A doença evolui em quatro períodos:

Incubação

Dura em torno de 10 a 15 dias.

Período catarral

Pode durar de dois a quatro dias e é marcado por febre alta, tosse, coriza, conjuntivite e manchas brancas na mucosa oral, conhecidas como manchas de Koplik.

Período exantemático

Dura de quatro a seis dias e apresenta o surgimento de manchas vermelhas. Elas começam no rosto, atrás das orelhas, e depois se espalham para o tronco, braços e pernas.

Convalescença

É o período de recuperação, quando o paciente pode apresentar descamação.

Amnésia imunológica também pode ocorrer em adultos

Segundo Jessica Ramos, a amnésia imunológica não é exclusiva das crianças. O fenômeno também pode ocorrer em adultos, que igualmente possuem células de memória suscetíveis ao vírus.

Ainda não existem dados exatos sobre a intensidade e a duração da amnésia imunológica em adultos nem sobre o quanto ela difere do fenômeno observado em crianças.

Parte do conhecimento disponível sobre os efeitos em adultos vem de estudos com gestantes que tiveram sarampo e apresentaram perda de anticorpos.

Um protocolo de pesquisa internacional está em andamento no continente africano para investigar especificamente a amnésia imunológica em adultos.

Aumento de casos reforça importância da vacinação

O recente aumento de casos de sarampo nos Estados Unidos, na Europa e no estado de São Paulo pode contribuir para a obtenção de novos dados sobre os efeitos da doença, inclusive no Brasil.

Até quarta-feira (19), São Paulo tinha 23 casos confirmados de sarampo em 2026: 20 na capital, dois em São Bernardo do Campo, no ABC, e um em Guarulhos, na região metropolitana.

A vacinação é apontada como a melhor forma de proteção contra a doença.

Quem deve se vacinar contra o sarampo

Em São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos, a orientação apresentada no material prevê dose zero para crianças de 6 meses a 11 meses e 29 dias.

Também é indicada a vacinação para pessoas de 6 meses a 59 anos, independentemente do histórico vacinal, a partir de 3 de agosto.

Nos demais municípios brasileiros, o esquema de rotina prevê duas doses: a primeira aos 12 meses, com a vacina tríplice viral, contra sarampo, caxumba e rubéola, e a segunda aos 15 meses, com a tetraviral, que também inclui varicela.

Pessoas de 1 a 29 anos devem ter duas doses da tríplice viral, enquanto adultos de 30 a 59 anos devem ter pelo menos uma dose. Profissionais de saúde precisam comprovar duas doses, independentemente da idade.

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Última atualização: 21/08/2026