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Relatório dos EUA aponta radiotelescópio da Paraíba como suposta ameaça estratégica

Relatório dos EUA aponta radiotelescópio da Paraíba como suposta ameaça estratégica

Documento do Congresso dos EUA cita projeto de radiotelescópio em Aguiar ligado à China e levanta preocupações sobre uso dual de tecnologia.

Carlos HenriqueCarlos Henrique
2 de março de 2026
3 min de leitura
Paraíba

Um relatório do Congresso dos Estados Unidos voltou a colocar em discussão um projeto científico instalado na Paraíba, ao citar o radiotelescópio que será construído no município de Aguiar como possível “ameaça” estratégica devido à participação chinesa no empreendimento.

O documento, elaborado pelo Comitê Seleto sobre a Competição Estratégica entre os Estados Unidos e o Partido Comunista Chinês, inclui o equipamento em uma lista de instalações na América do Sul que, segundo parlamentares norte-americanos, poderiam ampliar capacidades de inteligência e vigilância do governo da China.

Projeto científico em foco

O radiotelescópio citado no relatório é o BINGO (sigla em inglês para Baryon Acoustic Oscillations from Integrated Neutral Gas Observations), um equipamento de grande porte que está sendo instalado na Serra do Urubu, área rural de Aguiar.

Idealizado por pesquisadoress da Universidade de São Paulo, o projeto conta com participação de instituições brasileiras, entre elas a Universidade Federal da Paraíba, a Universidade Federal de Campina Grande, a Universidade Estadual da Paraíba e o Instituto Federal da Paraíba, além de colaboração de universidades do Reino Unido, França e Países Baixos.

O equipamento, previsto para ser concluído ainda neste ano, terá a capacidade de captar ondas de rádio emitidas pelo hidrogênio neutro no espaço profundo, contribuindo para estudos sobre a formação do universo, energia escura e estrutura cósmica.

Supostas conexões com a China

Ao incluir o radiotelescópio na lista de possíveis “ameaças”, o relatório argumenta que a ligação com o sistema industrial chinês, especialmente pelo fato de parte do equipamento ter sido produzido na China, pode trazer riscos de uso com fins de inteligência militar e vigilância.

No texto, o comitê menciona a integração da institution chinesa envolvida ao setor de defesa daquele país e sugere que sistemas de observação do espaço profundo podem ter “capacidades de uso duplo”, isto é, tanto para fins científicos quanto militares.

Essa mesma linha de raciocínio constante no relatório também aparece em outras matérias sobre o documento, que ressaltam preocupações norte-americanas sobre infraestrutura tecnológica ligada à China na América Latina, inclusive no Brasil.

Debate geopolítico e resposta local

Para cientistas e autoridades brasileiras envolvidos no projeto, a iniciativa BINGO representa um avanço significativo na pesquisa astronômica e não tem caráter militar. O equipamento está sendo instalado em região escolhida por seu baixo nível de interferência eletromagnética, o que viabiliza estudos sensíveis sem ruído externo.

Em resposta à repercussão internacional, o secretário de Ciência e Tecnologia da Paraíba, Cláudio Furtado, afirmou que o governo estadual aguardará um posicionamento oficial do Ministério das Relações Exteriores do Brasil antes de se manifestar sobre as menções feitas pelo Congresso dos EUA.

Contexto internacional

O relatório que trouxe o radiotelescópio da Paraíba ao centro das atenções é parte de uma análise mais ampla sobre a presença de infraestruturas tecnológicas na América Latina com possíveis vínculos com a China. Além da análise do projeto BINGO, o documento também menciona outras instalações na região, como estações de rastreamento de satélites e bases apontadas como de uso dual, em países como Brasil, Chile, Argentina e Bolívia.

Esse debate ocorre em meio a uma crescente rivalidade geopolítica entre Estados Unidos e China, que tem ampliado a atenção de autoridades norte-americanas para parcerias tecnológicas e científicas envolvendo tecnologia sensível fora de seu território.

Enquanto segue a instalação do radiotelescópio em Aguiar e o desenvolvimento das pesquisas científicas vinculadas ao projeto BINGO, o posicionamento oficial das autoridades brasileiras sobre as preocupações levantadas pelo relatório norte-americano ainda depende de manifestação do Itamaraty, conforme indicado pela secretaria de Ciência e Tecnologia da Paraíba.

A conclusão das obras e a entrada em operação do equipamento devem consolidar a Paraíba como um importante polo de pesquisa astronômica no país.

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#eua#relatorio#congresso
Última atualização: 02/03/2026