Moradores do município de Aguiar, no Sertão da Paraíba, saíram em defesa do Radiotelescópio BINGO após um relatório do Congresso dos Estados Unidos apontar o empreendimento como uma possível base militar chinesa. A população local, no entanto, rejeita a alegação e destaca os impactos positivos do projeto, que envolve instituições brasileiras e chinesas e tem foco científico na observação do universo.
Moradores destacam desenvolvimento e reconhecimento
A reação dos moradores ocorre após a divulgação de um relatório norte-americano que levanta suspeitas sobre instalações na América Latina com potencial uso militar. Entre elas, estaria o radiotelescópio instalado em Aguiar.
Na avaliação da população local, porém, o projeto tem promovido avanços importantes para a região. Além de movimentar a economia, a iniciativa também tem contribuído para maior visibilidade do município.
A estudante e moradora Maisa Matias ressaltou os benefícios diretos do empreendimento para a cidade.
“Além de trazer muita oportunidade e questão de emprego, está mudando a infraestrutura da cidade, está crescendo a questão do turismo, além do reconhecimento em si, da cidade e do Sertão”, afirmou.
Outro exemplo citado é o da engenheira civil Edilene Lira, responsável pelas obras do BINGO. Natural de Carrapateira, cidade próxima a Aguiar, ela destacou a importância do projeto em sua trajetória profissional e pessoal.
“Eu nunca imaginei que realmente a Engenharia Civil fosse me levar tão longe e também, ao mesmo tempo, ela me trazer para tão perto de casa para construir algo tão grandioso”, disse.
Projeto tem foco científico e cooperação internacional
O radiotelescópio integra o projeto internacional BINGO (Baryon Acoustic Oscillations in Neutral Gas Observations), voltado à pesquisa em radioastronomia. O objetivo principal é mapear energia e matéria escura no universo por meio da detecção de oscilações acústicas bariônicas (BAO), utilizando sinais em radiofrequência.
A iniciativa reúne instituições brasileiras e chinesas, como o CESTNCRI, a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e o Governo da Paraíba.
Segundo o coordenador do projeto, o físico Élcio Abdalla, não há qualquer relação do empreendimento com fins militares.
“Não tem nada a ver com aplicação militar e os chineses estão nisso numa aplicação puramente científica. Os meus colegas chineses não fazem nenhuma afirmação do ponto de vista militar”, declarou.
Ele também explicou que a participação chinesa no projeto é limitada e ocorre no âmbito acadêmico.
“Os chineses fazem parte do projeto porque são cientistas. São três pesquisadores [...] Há 30 anos fazemos ciência juntos e orientamos estudantes em conjunto”, detalhou.
Participação chinesa é técnica e acadêmica
De acordo com a coordenação, apenas três pesquisadores chineses integram a cúpula do projeto, e a influência nas decisões é majoritariamente brasileira.
Além da colaboração científica, a China também contribuiu com o envio de equipamentos essenciais para a estrutura do radiotelescópio. Entre eles estão os espelhos primário e secundário e as torres das cornetas, componentes fundamentais do sistema.
Essas estruturas foram transportadas em contêineres, testadas e certificadas antes do embarque. O material saiu do Porto de Tianjin, na China, em 10 de junho de 2025, e chegou ao Porto de Suape, em Pernambuco, após quase dois meses de viagem.
O engenheiro sênior Wu Yang, ligado ao China Electronics Technology Group Corporation (CETC), explicou que o projeto foi pensado para facilitar a montagem no Brasil.
“O telescópio adota uma estrutura dual com deslocamento, sendo que cada seção possui uma forma única. A instalação no Brasil será feita pelo lado brasileiro, o que exige um processo de montagem simplificado”, afirmou.
Relatório dos EUA levanta suspeitas na América Latina
O documento que gerou a controvérsia foi elaborado pelo Comitê Especial sobre o Partido Comunista Chinês, do Congresso dos Estados Unidos. Intitulado “Pulling Latin America Into China's Orbit”, o relatório aponta instalações em países como Brasil, Argentina, Bolívia e Chile como possíveis estruturas com uso dual, incluindo inteligência militar.
O comitê é presidido pelo deputado John R. Moolenaar, representante do estado de Michigan.
Além do radiotelescópio em Aguiar, o relatório também menciona a Estação Terrestre de Tucano, na Bahia, descrita como uma suposta base não-oficial chinesa voltada à análise de dados de satélites para monitoramento.
Investimento e impacto regional
O Governo da Paraíba estima um investimento direto de R$ 20 milhões no projeto do radiotelescópio BINGO. Para a população local, os efeitos já são perceptíveis, especialmente na geração de empregos, melhoria da infraestrutura e crescimento do turismo científico.
A repercussão internacional, ainda que envolva questionamentos, também tem contribuído para ampliar a visibilidade de Aguiar e do Sertão paraibano.
Apesar das suspeitas levantadas pelo relatório norte-americano, moradores, pesquisadores e responsáveis pelo projeto reforçam o caráter científico do radiotelescópio BINGO e seus benefícios para a região. O empreendimento segue sendo visto localmente como um marco de desenvolvimento, inovação e inserção do Sertão da Paraíba em iniciativas de pesquisa de alcance internacional.
Fonte: Jornal da Paraíba
Créditos: Portal Ne1

