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Radiotelescópio em Aguiar gera debate após relatório dos EUA

Radiotelescópio em Aguiar gera debate após relatório dos EUA

Moradores de Aguiar defendem radiotelescópio BINGO após relatório dos EUA levantar suspeitas sobre uso militar.

Carlos HenriqueCarlos Henrique
23 de março de 2026
4 min de leitura
Paraíba

Moradores do município de Aguiar, no Sertão da Paraíba, saíram em defesa do Radiotelescópio BINGO após um relatório do Congresso dos Estados Unidos apontar o empreendimento como uma possível base militar chinesa. A população local, no entanto, rejeita a alegação e destaca os impactos positivos do projeto, que envolve instituições brasileiras e chinesas e tem foco científico na observação do universo.

Moradores destacam desenvolvimento e reconhecimento

A reação dos moradores ocorre após a divulgação de um relatório norte-americano que levanta suspeitas sobre instalações na América Latina com potencial uso militar. Entre elas, estaria o radiotelescópio instalado em Aguiar.

Na avaliação da população local, porém, o projeto tem promovido avanços importantes para a região. Além de movimentar a economia, a iniciativa também tem contribuído para maior visibilidade do município.

A estudante e moradora Maisa Matias ressaltou os benefícios diretos do empreendimento para a cidade.

“Além de trazer muita oportunidade e questão de emprego, está mudando a infraestrutura da cidade, está crescendo a questão do turismo, além do reconhecimento em si, da cidade e do Sertão”, afirmou.

Outro exemplo citado é o da engenheira civil Edilene Lira, responsável pelas obras do BINGO. Natural de Carrapateira, cidade próxima a Aguiar, ela destacou a importância do projeto em sua trajetória profissional e pessoal.

“Eu nunca imaginei que realmente a Engenharia Civil fosse me levar tão longe e também, ao mesmo tempo, ela me trazer para tão perto de casa para construir algo tão grandioso”, disse.

Projeto tem foco científico e cooperação internacional

O radiotelescópio integra o projeto internacional BINGO (Baryon Acoustic Oscillations in Neutral Gas Observations), voltado à pesquisa em radioastronomia. O objetivo principal é mapear energia e matéria escura no universo por meio da detecção de oscilações acústicas bariônicas (BAO), utilizando sinais em radiofrequência.

A iniciativa reúne instituições brasileiras e chinesas, como o CESTNCRI, a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e o Governo da Paraíba.

Segundo o coordenador do projeto, o físico Élcio Abdalla, não há qualquer relação do empreendimento com fins militares.

“Não tem nada a ver com aplicação militar e os chineses estão nisso numa aplicação puramente científica. Os meus colegas chineses não fazem nenhuma afirmação do ponto de vista militar”, declarou.

Ele também explicou que a participação chinesa no projeto é limitada e ocorre no âmbito acadêmico.

“Os chineses fazem parte do projeto porque são cientistas. São três pesquisadores [...] Há 30 anos fazemos ciência juntos e orientamos estudantes em conjunto”, detalhou.

Participação chinesa é técnica e acadêmica

De acordo com a coordenação, apenas três pesquisadores chineses integram a cúpula do projeto, e a influência nas decisões é majoritariamente brasileira.

Além da colaboração científica, a China também contribuiu com o envio de equipamentos essenciais para a estrutura do radiotelescópio. Entre eles estão os espelhos primário e secundário e as torres das cornetas, componentes fundamentais do sistema.

Essas estruturas foram transportadas em contêineres, testadas e certificadas antes do embarque. O material saiu do Porto de Tianjin, na China, em 10 de junho de 2025, e chegou ao Porto de Suape, em Pernambuco, após quase dois meses de viagem.

O engenheiro sênior Wu Yang, ligado ao China Electronics Technology Group Corporation (CETC), explicou que o projeto foi pensado para facilitar a montagem no Brasil.

“O telescópio adota uma estrutura dual com deslocamento, sendo que cada seção possui uma forma única. A instalação no Brasil será feita pelo lado brasileiro, o que exige um processo de montagem simplificado”, afirmou.

Relatório dos EUA levanta suspeitas na América Latina

O documento que gerou a controvérsia foi elaborado pelo Comitê Especial sobre o Partido Comunista Chinês, do Congresso dos Estados Unidos. Intitulado “Pulling Latin America Into China's Orbit”, o relatório aponta instalações em países como Brasil, Argentina, Bolívia e Chile como possíveis estruturas com uso dual, incluindo inteligência militar.

O comitê é presidido pelo deputado John R. Moolenaar, representante do estado de Michigan.

Além do radiotelescópio em Aguiar, o relatório também menciona a Estação Terrestre de Tucano, na Bahia, descrita como uma suposta base não-oficial chinesa voltada à análise de dados de satélites para monitoramento.

Investimento e impacto regional

O Governo da Paraíba estima um investimento direto de R$ 20 milhões no projeto do radiotelescópio BINGO. Para a população local, os efeitos já são perceptíveis, especialmente na geração de empregos, melhoria da infraestrutura e crescimento do turismo científico.

A repercussão internacional, ainda que envolva questionamentos, também tem contribuído para ampliar a visibilidade de Aguiar e do Sertão paraibano.

Apesar das suspeitas levantadas pelo relatório norte-americano, moradores, pesquisadores e responsáveis pelo projeto reforçam o caráter científico do radiotelescópio BINGO e seus benefícios para a região. O empreendimento segue sendo visto localmente como um marco de desenvolvimento, inovação e inserção do Sertão da Paraíba em iniciativas de pesquisa de alcance internacional.

Fonte: Jornal da Paraíba

Créditos: Portal Ne1

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Última atualização: 23/03/2026