Vinte anos antes de a Acadêmicos de Niterói levar à Sapucaí um enredo em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Partido dos Trabalhadores recorreu à Justiça para tentar impedir um desfile em São Paulo que homenagearia pré-candidatos do PSDB à Presidência. À época, a iniciativa ocorreu no âmbito do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), em movimento semelhante ao que partidos de oposição articulam atualmente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para contestar a legalidade do desfile em tributo a Lula.
Em fevereiro de 2006, o então líder da bancada do PT na Câmara Municipal de São Paulo, Arselino Tatto, apresentou uma ação popular com pedido de liminar para impedir que a escola de samba Leandro de Itaquera desfilasse com um carro alegórico em homenagem a Geraldo Alckmin, então governador de São Paulo pelo PSDB, e ao então prefeito da capital, José Serra. Ambos eram cotados como possíveis candidatos tucanos à Presidência da República na eleição daquele ano.
O enredo da escola abordaria as obras de rebaixamento da calha do rio Tietê, uma das principais vitrines da gestão de Alckmin. Bonecos gigantes dos dois políticos integrariam um dos carros alegóricos. O presidente da agremiação à época, Leandro Alves Martins, já havia sido candidato a vereador pelo PSDB em 2004.
Na ação judicial, Tatto argumentou que a homenagem configuraria “promoção pessoal de políticos e autoridades”. O pedido de liminar, no entanto, foi negado pela juíza Márcia Cardoso, da 11ª Vara da Fazenda Pública, sob o entendimento de que a alegação se baseava em presunções e não poderia se sobrepor ao princípio da liberdade de expressão artística.
No desfile, os bonecos de Alckmin e Serra vieram logo após um carro que representava a parada do orgulho gay. A Leandro de Itaquera acabou rebaixada naquele ano.
Meses depois, o caso voltou a ser alvo do PT após a revelação de que o banco estadual Nossa Caixa havia destinado R$ 1,5 milhão à Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo como patrocínio, valor superior aos R$ 1,2 milhão investidos em campanha publicitária para divulgar os resultados do banco em 2005. Segundo a reportagem, cem funcionários da instituição desfilaram com fantasias doadas pela escola e participaram do samba-enredo que exaltava as obras do Tietê.
Procurado, Arselino Tatto afirmou que as situações de 2006 e a atual são distintas. Segundo ele, no caso da Leandro de Itaquera houve envolvimento direto de tucanos nas decisões da escola, enquanto no enredo da Acadêmicos de Niterói não houve interferência do governo federal ou do presidente Lula.
“O Lula procurou a CGU [Controladoria-Geral da União], foi perguntar, se informou direitinho. O partido estava discutindo os prós e contras, e a partir do momento em que tivemos uma garantia jurídica de que estava tudo bem, ok, e foi bonito”, declarou.

