O passado ambiental de Guarabira está diretamente ligado aos desafios urbanos enfrentados atualmente, especialmente em relação aos alagamentos registrados em áreas centrais da cidade. De acordo com o estudo “Retrospecto Histórico de Guarabira”, da pesquisadora Nébia de Lucena Souto Marinho, parte significativa do território onde hoje se encontra a Avenida Dom Pedro II era composta por lagoas e áreas úmidas naturais.
A pesquisa histórica indica que essas transformações ambientais, ocorridas ao longo dos séculos, influenciaram a configuração urbana atual. O crescimento da cidade, especialmente durante o século XX, modificou profundamente a paisagem original da região.
Lagoas naturais marcaram a formação territorial
Segundo o levantamento acadêmico, a área que hoje abriga a Avenida Dom Pedro II — um dos principais corredores comerciais do município — era originalmente formada por lagoas e terrenos alagadiços.
O estudo destaca que Guarabira chegou a ser conhecida como a “Cidade das Garças Azuis”, em referência às aves que habitavam essas lagoas urbanas. Esses corpos d’água naturais desempenhavam papel importante como nichos ecológicos e contribuíam para o equilíbrio ambiental da região.
Com o avanço da urbanização, muitas dessas áreas foram aterradas para viabilizar a expansão da cidade. O documento aponta que houve, em determinados momentos, planejamento para preservar parte dessas lagoas e transformá-las em espaços públicos.
Planejamento urbano previa parque com lagoa
O estudo histórico menciona que, em 1948, houve um planejamento de expansão urbana que incluía áreas de preservação e até mesmo um parque com lagoa. A proposta era semelhante ao modelo do Parque Sólon de Lucena, localizado na capital paraibana.
No entanto, ao longo do tempo, alterações estruturais modificaram o desenho original previsto para a cidade. O processo de crescimento e adensamento urbano acabou consolidando a ocupação dessas áreas anteriormente úmidas.
O resultado foi a transformação definitiva da paisagem natural em infraestrutura urbana, com pavimentação e aumento da impermeabilização do solo.
Urbanização e impactos no escoamento da água
Especialistas em geografia urbana apontam que intervenções em áreas originalmente alagadiças podem influenciar o comportamento do escoamento da água, principalmente durante períodos de chuva intensa.
A impermeabilização do solo, comum em centros urbanos, reduz a capacidade de absorção natural da água. Quando associada à ocupação de antigas lagoas e áreas úmidas, pode contribuir para o acúmulo de água em pontos específicos da cidade.
Embora o estudo citado tenha caráter histórico, ele oferece elementos que ajudam a contextualizar debates atuais sobre infraestrutura de drenagem e planejamento urbano em Guarabira.
Registros recentes reforçam padrão recorrente
Ao cruzar os dados históricos com episódios documentados em 24 de maio de 2016, 31 de janeiro de 2023, 28 de março de 2023, 16 de março de 2025, 16 de maio de 2025 e 1º de março de 2026, observa-se que os alagamentos concentram-se majoritariamente nas mesmas áreas centrais do município.
Esse padrão recorrente reforça a percepção de moradores de que o fenômeno é estrutural e não isolado. As ocorrências registradas ao longo dos anos indicam repetição em pontos específicos da malha urbana.
A coincidência entre as áreas historicamente úmidas e os locais atuais de acúmulo de água reacende o debate sobre como o passado ambiental pode influenciar o presente.




Entre a história e os desafios contemporâneos
Guarabira foi oficialmente fundada como cidade em 26 de novembro de 1887, após séculos de transformações desde o período colonial. Ao longo do tempo, consolidou-se como um dos principais polos econômicos e comerciais do Brejo paraibano.
O crescimento urbano e a expansão comercial são processos comuns à maioria das cidades brasileiras. A ocupação de áreas antes naturais faz parte dessa dinâmica histórica de desenvolvimento.
No entanto, os episódios recentes de chuvas intensas trazem à tona a necessidade de reflexão sobre planejamento urbano, infraestrutura de drenagem e adaptação às características naturais do território.
Debate sobre o futuro urbano
Os registros históricos reunidos no estudo acadêmico, somados a publicações da imprensa e imagens recentes feitas pela população, contribuem para ampliar a compreensão sobre um fenômeno recorrente no município.
A análise do passado ambiental não busca atribuir responsabilidades, mas oferecer subsídios para um debate público qualificado e transparente.
A história de Guarabira revela uma cidade que cresceu, se transformou e se desenvolveu ao longo dos séculos. Os desafios atuais dialogam diretamente com esse passado e reforçam a importância de reflexão coletiva sobre o futuro urbano do município.
Compreender a relação entre território, memória e planejamento pode ser um passo essencial para pensar soluções que respeitem as características naturais da região e promovam um desenvolvimento mais sustentável.

