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Papa Leão 14 alerta para riscos da inteligência artificial

Papa Leão 14 alerta para riscos da inteligência artificial

Em primeira encíclica, papa Leão 14 critica impactos da IA no trabalho, guerras, desinformação e relações humanas.

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Luis Gomes
26 de maio de 2026
4 min de leitura
Internacional

O papa Leão 14 publicou nesta segunda-feira (25) sua primeira encíclica, intitulada Magnifica humanitas, dedicada aos impactos da inteligência artificial na sociedade. No documento, o pontífice alerta para riscos relacionados ao mercado de trabalho, guerras, desinformação, dependência digital e novas formas de escravidão, além de defender maior controle ético e jurídico sobre o avanço tecnológico.

O texto, composto por 245 parágrafos e subtitulado “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”, foi divulgado pelo Vaticano pouco mais de um ano após a eleição do americano Robert Prevost, de 70 anos, como líder da Igreja Católica.

Na encíclica, o papa afirma que “desarmar a IA” significa impedir que a tecnologia domine o ser humano e critica a lógica de competição armada, econômica e cognitiva associada ao desenvolvimento tecnológico. Segundo ele, a inteligência artificial deve ser retirada dos monopólios e submetida a debate público e supervisão ética.

O documento também pede que os católicos permaneçam “fiéis à verdade”, invistam em educação digital e preservem relações humanas presenciais. Ao mesmo tempo, cobra da comunidade internacional a criação de marcos regulatórios adequados e mecanismos independentes de fiscalização.

Leão 14 dedica parte significativa da encíclica aos impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho. O pontífice reconhece que a tecnologia pode aliviar atividades pesadas, repetitivas e perigosas, mas ressalta que o aumento de lucros não pode justificar a eliminação sistemática de empregos.

O papa também denuncia o que chamou de “novas formas de escravidão” na economia digital, citando trabalhadores responsáveis por tarefas como etiquetagem de dados, moderação de conteúdo e treinamento de modelos de inteligência artificial. Segundo o texto, muitos desses profissionais são jovens e mulheres submetidos a remuneração mínima e condições desgastantes.

Outro tema central da encíclica é o uso da inteligência artificial em conflitos armados. O pontífice afirma que guerras modernas incluem ataques cibernéticos, manipulação da informação e automatização de decisões estratégicas, tornando mais rápida e impessoal a decisão sobre a vida e a morte.

Leão 14 também critica narrativas de desinformação e discursos de medo utilizados em contextos de guerra. Para ele, a humanidade dispõe de instrumentos mais eficazes para enfrentar conflitos, como diálogo, diplomacia e perdão, defendendo ainda a superação da teoria da “guerra justa”.

O documento aborda ainda um novo modelo de colonialismo baseado em dados, descrito pelo papa como um sistema de extração de informações sanitárias, genéticas e demográficas de regiões mais vulneráveis. Segundo ele, essas práticas servem para orientar investimentos, prever crises e selecionar quem possui relevância econômica e política.

Na área da comunicação, o pontífice afirma que a inteligência artificial atua como um “poderoso multiplicador” da desinformação. O texto destaca a importância do jornalismo sério, da verificação dos fatos e da criação de espaços de debate sustentados por argumentação e averiguação, em vez de reações impulsivas.

Ao final da encíclica, Leão 14 pede atenção às relações humanas presenciais e alerta para os riscos da dependência digital. O papa incentiva encontros comunitários, visitas a pessoas isoladas e ações de solidariedade, além de defender educação voltada ao uso responsável das tecnologias.

O lançamento da encíclica contou com a presença do cofundador da Anthropic, Christopher Olah, que afirmou existir uma possibilidade real de substituição em larga escala do trabalho humano pela inteligência artificial. O executivo defendeu apoio aos trabalhadores afetados e destacou a necessidade de maior responsabilidade no desenvolvimento de sistemas avançados de IA.

Leão 14 já vinha tratando do tema em discursos recentes. Em abril, durante viagem ao continente africano, afirmou que a inteligência artificial poderia alimentar conflitos e violência. Dias antes da publicação da encíclica, o pontífice também aprovou a criação de uma comissão interna dedicada ao tema dentro da Santa Sé.

A discussão sobre inteligência artificial no Vaticano ganhou força ainda no pontificado de Francisco. Em 2020, foi lançado o documento “Apelo de Roma pela Ética na IA”, voltado à promoção de responsabilidade coletiva no uso da tecnologia. Já em 2024, Francisco se tornou o primeiro papa a participar de uma cúpula do G7, ocasião em que defendeu supervisão rigorosa da inteligência artificial para proteger a dignidade humana.

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Última atualização: 26/05/2026