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MPF pede demarcação de território quilombola na Praia da Penha

MPF pede demarcação de território quilombola na Praia da Penha

Ação do MPF busca demarcar território quilombola na Praia da Penha e proteger áreas tradicionais, patrimônio cultural e meio ambiente.

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Ana Vívian
24 de agosto de 2026
5 min de leitura
Policial

O Ministério Público Federal na Paraíba (MPF-PB) entrou com uma ação civil pública na Justiça Federal para pedir a demarcação do território quilombola localizado na Praia da Penha, em João Pessoa. Divulgada nesta segunda-feira (24), a ação propõe um programa estrutural para proteger o território, o chamado maretório — que reúne áreas de terra e mar —, o meio ambiente e o patrimônio sagrado relacionado à comunidade quilombola.

A proposta envolve a União, a Prefeitura de João Pessoa, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) e empresas cujas atividades afetam áreas do território tradicional.

O que o MPF pede na ação

Além da demarcação do território quilombola, a ação apresenta uma série de medidas destinadas a garantir a permanência da comunidade e a proteção das áreas utilizadas tradicionalmente pelos moradores.

Entre os pedidos estão a identificação das terras pertencentes à União, a regularização do uso tradicional de praias, rios e manguezais e a proteção dos acessos utilizados pela comunidade.

O MPF também pede a identificação de possíveis sobreposições de registros imobiliários na região. A proposta prevê ainda um cronograma de execução das medidas, com definição das responsabilidades de cada órgão envolvido.

O acompanhamento dos resultados deverá ocorrer de forma periódica, com fiscalização judicial da execução das providências previstas na ação.

Comunidade foi certificada como quilombola

Segundo o MPF, em janeiro de 2026 os moradores da área formalizaram coletivamente a autodeclaração como comunidade quilombola. Posteriormente, a comunidade foi certificada pela Fundação Cultural Palmares.

A ação considera que a relação da população negra com a região da Penha se estende por pelo menos sete gerações.

Essa relação não se limita às moradias. Conforme o documento, atividades como pesca artesanal e mariscagem, além das relações familiares, da religiosidade e dos conhecimentos transmitidos entre gerações, fazem parte da ligação da comunidade com o território.

Para o MPF, esses elementos demonstram uma relação tradicional com a área que envolve aspectos sociais, culturais, econômicos e religiosos.

Avanço imobiliário é apontado como ameaça

Um dos pontos destacados pelo MPF é o avanço imobiliário sobre a região. De acordo com a ação, esse processo tem dificultado que novas gerações da comunidade construam suas casas e permaneçam no território ocupado por seus pais, avós e antepassados.

O órgão descreve um cenário de disputa entre famílias de baixa renda e pescadores que utilizam tradicionalmente a área e o avanço de empreendimentos imobiliários de alto padrão.

A ação também menciona o chamado "turismo predatório" e, em parte do território, investimentos associados ao capital estrangeiro.

Para o MPF, a especulação imobiliária exerce pressão sobre o território e também alcança locais considerados importantes para a religiosidade e a cultura da comunidade.

Lugares de valor religioso e cultural

Entre os espaços mencionados na ação estão o Santuário de Nossa Senhora da Penha, o Cruzeiro e caminhos e áreas relacionados às manifestações religiosas tradicionais.

Segundo o MPF, intervenções que restrinjam o acesso ou modifiquem esses locais podem afetar mais do que os espaços físicos.

O órgão considera que esses lugares também estão ligados à memória religiosa e cultural construída pela comunidade ao longo de gerações.

Nesse contexto, a proteção do território defendida na ação inclui não apenas a garantia de áreas para moradia e atividades tradicionais, mas também a preservação dos espaços relacionados à identidade cultural e religiosa dos quilombolas.

Degradação do Rio Cabelo

A ação civil pública também aponta problemas ambientais no Rio Cabelo, localizado na região que pode ser incluída no território a ser demarcado.

Segundo o documento, laudos e vistorias técnicas identificaram um processo contínuo de degradação do rio. Entre os problemas apontados estão lançamento de efluentes, ligações clandestinas de esgoto e descarte de resíduos sólidos.

Também são citados perda de vegetação ciliar, assoreamento, estreitamento do leito e aterramento de margens e áreas de manguezal.

Diante desse cenário, o MPF pede que a União e o município de João Pessoa elaborem, no prazo de até 90 dias, um Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (Prad) para todo o Rio Cabelo, desde a nascente até a foz.

A proposta prevê ainda a participação ativa da comunidade quilombola na elaboração do plano.

Órgãos foram procurados

O Jornal da Paraíba informou ter procurado a Advocacia-Geral da União (AGU), a Prefeitura de João Pessoa, por meio do procurador-geral, a Sudema e o Incra para obter posicionamentos sobre a ação.

Até a última atualização da reportagem, nenhum dos órgãos havia respondido.

A ação apresentada pelo MPF estabelece, portanto, uma série de medidas que vão além da demarcação do território. O programa proposto envolve regularização fundiária, proteção ambiental, preservação cultural e garantia dos acessos utilizados tradicionalmente pela comunidade.

Próximos passos

O processo deverá tramitar na Justiça Federal e prevê o envolvimento dos diferentes órgãos públicos e empresas citados pelo MPF.

Entre os pontos centrais estão a demarcação do território quilombola, a identificação de áreas da União, a análise de possíveis sobreposições imobiliárias e a proteção de praias, rios e manguezais utilizados tradicionalmente pelos moradores.

Também deverá ser discutida a recuperação do Rio Cabelo, caso o pedido relacionado ao plano ambiental avance conforme proposto pelo Ministério Público Federal.

A ação coloca no centro da discussão a proteção do território tradicional da comunidade quilombola da Praia da Penha e a conciliação entre preservação ambiental, patrimônio cultural, atividades tradicionais e ocupação da área.

Fonte: Jornal da Paraiba

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Última atualização: 24/08/2026