O avanço da mosca-varejeira-do-Novo-Mundo (Cochliomyia hominivorax) voltou a preocupar autoridades sanitárias no México. Mais de 500 pessoas já foram infectadas no país desde o reaparecimento do parasita, cuja larva invade feridas e se alimenta de tecido vivo.
A evolução dos casos humanos foi analisada em um estudo publicado na revista científica Emerging Infectious Diseases. Os pesquisadores avaliaram 202 diagnósticos confirmados de miíase registrados entre abril de 2025 e março de 2026 e identificaram uma aceleração das ocorrências.
Em 2025, a média era de aproximadamente três novos casos por semana. Em 2026, o ritmo ultrapassou nove registros semanais.
Entre os 202 pacientes analisados, seis morreram. A infestação foi apontada como causa direta de uma das mortes. Nos outros cinco casos, os pacientes apresentavam doenças ou complicações graves, incluindo câncer, encefalite, insuficiência respiratória e choque séptico.
Como ocorre a infestação pela mosca-varejeira
A miíase começa quando a fêmea da mosca deposita centenas de ovos em ferimentos, áreas inflamadas, mucosas ou orifícios naturais de animais de sangue quente, incluindo seres humanos.
Os ovos podem eclodir em aproximadamente 24 horas. Depois disso, as larvas passam a consumir tecido vivo, provocando o aumento progressivo da lesão.
Sem tratamento, a infestação pode avançar para estruturas mais profundas, como músculos, cartilagens e ossos. Dependendo do local atingido, até o crânio pode ser afetado. Infecções secundárias, sepse e sequelas permanentes estão entre as possíveis complicações.
A remoção das larvas e o atendimento médico precoce são fundamentais para impedir a progressão do quadro.
Homens e idosos concentram os casos
O levantamento dos 202 pacientes mostrou predominância de homens. Foram 145 casos masculinos, correspondentes a 72% do total.
As idades variaram entre 12 e 93 anos, com média de 61 anos. Cerca de 77% dos pacientes tinham pelo menos uma condição de saúde preexistente. Entre as mais frequentes estavam diabetes, alcoolismo, câncer e doenças dermatológicas.
Pernas e pés concentraram 55% das infestações. Também foram registrados casos na cabeça e no pescoço, incluindo nariz, boca e olhos, além de braços, tronco, orelhas, órgãos genitais e cavidade abdominal.
Os pesquisadores ainda não encontraram uma explicação definitiva para a maior proporção de homens entre os infectados. Entre os fatores considerados estão exposição profissional, atividades ao ar livre, contato com animais, feridas sem tratamento e demora na busca por atendimento médico.
Retorno do parasita acompanha avanço entre animais
O México havia declarado a erradicação da mosca-varejeira-do-Novo-Mundo em 2003. O Panamá anunciou o mesmo resultado em 2006 e manteve durante anos uma barreira biológica na região de Darién, próxima à fronteira com a Colômbia.
A contenção foi rompida em 2022. Dois anos depois, o México voltou a identificar o parasita em animais.
Desde então, a disseminação se intensificou. Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apontam mais de 36 mil infestações em animais no território mexicano. Em 5 de agosto, quase 2 mil casos permaneciam ativos.
Considerando também outros países da América Central, estimativas do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) indicam cerca de 2.360 infecções humanas.
Os locais onde são registrados casos em pessoas coincidem, em grande parte, com as áreas onde animais também são afetados. Para os autores do estudo, essa relação reforça a necessidade de ações integradas entre os setores responsáveis pela saúde humana, saúde animal, agricultura e vida selvagem.
“A coordenação entre os setores de saúde humana, saúde animal, vida selvagem e agricultura será essencial para orientar as medidas de prevenção e controle”, afirmam os pesquisadores.
Entre as medidas defendidas estão o aumento da vigilância, a capacitação dos serviços de saúde para identificar rapidamente a doença, o controle do transporte de animais e ações para impedir a proliferação da mosca antes que novas regiões sejam atingidas.
Estados Unidos registram casos em animais
A expansão também chegou aos Estados Unidos. Em junho de 2026, o Texas registrou os primeiros casos em animais relacionados à atual onda de disseminação. Desde então, o USDA contabilizou 45 ocorrências no país.
Até o momento, não há registro de transmissão humana nos Estados Unidos diretamente relacionada a esse ressurgimento. Casos de miíase, porém, já foram identificados em pessoas que viajaram para a América Central e outras regiões onde a mosca continua presente.
Bicheira é conhecida no Brasil
No Brasil, a Cochliomyia hominivorax já é conhecida. A infestação provocada pelas larvas é popularmente chamada de bicheira e ocorre há décadas no país, inclusive em animais de criação.
Pessoas idosas estão entre os grupos mais vulneráveis a complicações, principalmente quando apresentam dificuldades para cuidar de feridas ou outras condições de saúde.
Em março de 2026, uma mulher de 87 anos foi encontrada com larvas na boca e na gengiva durante um resgate em uma casa de repouso clandestina em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Ela ficou internada por uma semana e morreu no fim daquele mês.
Outro caso ocorreu em 2022, quando uma mulher de 67 anos foi atendida no Hospital Universitário de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, com larvas no nariz e na boca.
A prevenção inclui cuidados de higiene e limpeza adequada de machucados, já que secreções e odores de feridas podem atrair as moscas. Depois da postura dos ovos, as larvas podem se tornar visíveis em poucos dias.
Ao identificar uma infestação ou suspeitar da presença de larvas em uma ferida, a orientação é procurar atendimento médico rapidamente para que os parasitas sejam removidos e a extensão das lesões seja avaliada.

