A violência contra professores continua sendo um dos principais desafios da educação brasileira. Uma pesquisa realizada pelo Centro do Professorado Paulista (CPP) com 1.144 docentes revelou que 65% dos professores afirmam já ter sofrido algum tipo de agressão em sala de aula ou no ambiente escolar, evidenciando uma realidade que afeta diretamente a qualidade do ensino e a saúde mental dos profissionais.
O levantamento mostra que a violência verbal é a forma mais recorrente, representando 71% dos casos relatados. Em seguida aparecem a violência psicológica e moral (58%), a violência institucional (27%) e a violência física (19%).
Os dados reforçam outro estudo internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado em 2024, que colocou o Brasil entre os países com os maiores índices de intimidação contra professores. Segundo o levantamento, 47% dos educadores brasileiros afirmaram sofrer intimidações ou abusos verbais por parte de alunos, percentual muito superior à média internacional, de aproximadamente 18%.
Casos revelam impactos além da sala de aula
A reportagem da BBC News Brasil reúne relatos de professores que enfrentaram situações extremas de violência.
Entre eles está o de uma professora da rede municipal de São Paulo que recebeu ameaças de morte feitas pelo pai de um aluno após conflitos relacionados ao desempenho escolar da criança. O episódio resultou em afastamento do trabalho e desencadeou um quadro de forte sofrimento psicológico.
Outro caso citado envolve uma professora que teve parte de um dedo amputado durante uma crise de desregulação emocional de um estudante com deficiência intelectual. Em outro episódio, um professor foi agredido fisicamente ao tentar proteger alunas durante uma atividade escolar.
Os relatos evidenciam que a violência pode partir de diferentes agentes — estudantes, familiares e, em alguns casos, estar relacionada à ausência de condições adequadas de trabalho e de suporte institucional.
Saúde mental dos educadores preocupa especialistas
Especialistas ouvidos pela BBC afirmam que a exposição contínua à violência tem provocado o aumento de casos de burnout, depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático entre professores.
Dados do Centro do Professorado Paulista apontam que, somente em 2024, foram concedidas mais de 42 mil licenças médicas por transtornos mentais e comportamentais a professores efetivos da rede estadual de São Paulo. Em 2025, até setembro, já haviam sido registradas mais de 25 mil licenças pelo mesmo motivo.
Segundo pesquisadores, além das agressões diretas, fatores como sobrecarga de trabalho, falta de estrutura nas escolas, turmas numerosas e insuficiência de profissionais de apoio também contribuem para o adoecimento da categoria.
Inclusão escolar exige investimento
A reportagem destaca ainda que muitos episódios de violência ocorrem em contextos envolvendo estudantes com deficiência ou neurodivergentes que enfrentam crises comportamentais.
Especialistas ressaltam que o problema não está na inclusão desses estudantes, considerada um direito garantido por lei, mas na falta de investimentos suficientes para assegurar equipes multidisciplinares, professores especializados, auxiliares de apoio e formação continuada para os educadores.
Nesse cenário, defendem que políticas públicas voltadas à educação inclusiva precisam ser acompanhadas de infraestrutura adequada para garantir segurança e aprendizagem para todos.
Diálogo e valorização são apontados como caminhos
Representantes da educação defendem que o enfrentamento da violência nas escolas passa por diferentes frentes, como o fortalecimento do diálogo entre escola, famílias e comunidade, melhores condições de trabalho, valorização dos profissionais da educação e ampliação de equipes de apoio psicossocial.
Também são apontadas como medidas importantes a mediação de conflitos, programas de cultura de paz, investimentos em saúde mental e ações preventivas que fortaleçam o vínculo entre estudantes, educadores e comunidade escolar.
Mais do que proteger os professores, especialistas destacam que ambientes escolares seguros favorecem o desenvolvimento dos estudantes e contribuem para uma educação mais acolhedora, inclusiva e de qualidade.
Créditos: Com informações da BBC News Brasil.

