Mais de 100 mil crianças foram separadas de seus pais durante a ofensiva migratória conduzida pelo governo do presidente Donald Trump nos Estados Unidos, segundo estimativas do Brookings Institution divulgadas pelo jornal The New York Times. O levantamento aponta que cerca de três em cada quatro crianças afetadas são cidadãs americanas.
De acordo com a análise, aproximadamente 205 mil crianças tiveram ao menos um dos pais detido por autoridades migratórias. Desse total, cerca de 145 mil são cidadãos dos Estados Unidos.
Os pesquisadores afirmam que os números podem ser superiores aos dados oficiais divulgados pelo Departamento de Segurança Interna (DHS). Segundo o estudo, a diferença ocorre porque as autoridades nem sempre perguntam aos detidos se possuem filhos ou porque muitos imigrantes evitam fornecer essas informações por medo de consequências adicionais.
O DHS não respondeu diretamente aos questionamentos sobre os dados apresentados pelo Brookings Institution. Em nota, o órgão informou apenas que pais detidos podem optar por deixar o país acompanhados dos filhos ou indicar um responsável legal para cuidar das crianças nascidas nos Estados Unidos.
Casos individuais ilustram os impactos das detenções migratórias no interior do país. Uma das situações citadas é a de Ledy Ordonez, presa em julho do ano passado durante uma operação em um atacadista de frutos do mar em San Antonio, no Texas. Desde então, ela permanece detida e separada do filho Alonzo, de dois anos, cidadão americano que atualmente vive sob os cuidados de uma amiga da família.
“Ele já anda e fala agora. Eu perdi tanta coisa”, declarou Ordonez ao relatar o período longe do filho.
Pesquisadoras responsáveis pelo estudo afirmam que o problema tende a crescer nos próximos anos. Segundo Tara Watson, uma das autoras da análise, dezenas de milhares de crianças já foram impactadas pelas detenções desde o início da atual política migratória.
O levantamento foi elaborado a partir de análises estatísticas que cruzaram dados do Censo dos Estados Unidos com informações de prisões realizadas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Os pesquisadores consideraram fatores como nacionalidade, idade, sexo, estado civil e situação migratória dos detidos.
Além disso, os autores criaram uma ferramenta interativa para simular cenários de fiscalização migratória e os possíveis impactos sobre famílias. A estimativa mais conservadora aponta cerca de 117,4 mil crianças americanas com ao menos um dos pais detido, enquanto a projeção mais alta chega a aproximadamente 175 mil.
O Brookings Institution considera o número de 145 mil crianças cidadãs afetadas como a estimativa mais provável. As pesquisadoras também projetam aumento nos casos diante da previsão de ampliação da estrutura de detenção migratória, com investimento estimado em US$ 45 bilhões no projeto chamado “One Big Beautiful Bill”.
Os dados apresentados contrastam com os números oficiais do DHS, que afirma que cerca de 60 mil crianças americanas tiveram os pais presos no mesmo período.
Relatos de organizações e agências de apoio indicam ainda que a maioria das crianças afetadas não é encaminhada para abrigos, permanecendo sob os cuidados de amigos ou familiares.
“Descobrimos que, de forma impressionante, poucas acabam em lares temporários; a maioria fica com amigos e familiares que não têm obrigação legal de cuidar dessas crianças”, afirmou Maria Cancian ao The New York Times.
Entidades que atuaram em casos de separação familiar na fronteira em 2018 também relatam aumento dos pedidos de ajuda relacionados a detenções no interior dos Estados Unidos.
“Quase todos os dias somos procurados por uma mãe em detenção que foi presa e tirada dos filhos. Desta vez, a crueldade muitas vezes está sendo infligida a crianças cidadãs dos EUA”, declarou Casey Revkin, diretora da organização Each Step Home.

