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Juros altos e Maracanã rentável fazem Flamengo adiar estádio próprio

Juros altos e Maracanã rentável fazem Flamengo adiar estádio próprio

Com juros elevados e alta rentabilidade no Maracanã, Flamengo não tem pressa para iniciar obras do novo estádio no Gasômetro.

Carlos HenriqueCarlos Henrique
14 de fevereiro de 2026
5 min de leitura
Esporte

Mesmo após a compra do terreno do Gasômetro, em 2024, o projeto do estádio próprio do Flamengo não deve sair do papel tão cedo. A atual diretoria rubro-negra avalia que o cenário econômico, marcado por juros elevados, aliado à alta rentabilidade obtida com jogos no Maracanã, torna inviável acelerar o início das obras. A previsão de inauguração, que já foi revista de 2029 para 2036, pode ser novamente adiada.

Compra do terreno marcou avanço do projeto

O sonho da casa própria avançou quando o Flamengo adquiriu o terreno do Gasômetro, no Rio de Janeiro, por cerca de R$ 170 milhões. A negociação foi concluída em 2024 e, no fim de 2025, o clube conseguiu encerrar a disputa judicial com a Caixa Econômica Federal por meio de um termo de conciliação.

Apesar disso, a diretoria entende que a compra do terreno não significa, necessariamente, o início imediato das obras. O clube também firmou acordo com a Prefeitura do Rio de Janeiro para derrubar o compromisso assumido pela gestão anterior, que previa a inauguração do estádio em 2029.

Prazo foi recalculado para 2036, mas pode mudar

Com a revisão do cronograma, a nova previsão de entrega passou a ser 2036. Ainda assim, o próprio comando rubro-negro admite que esse prazo pode se estender ainda mais.

Em entrevista ao jornal espanhol AS, o dirigente conhecido como Bap foi direto ao abordar o tema. “O Maracanã é meu por 19 anos. Tenho 19 anos para esperar e ver se preciso construir um novo estádio ou não”, afirmou.

Segundo ele, a concessão do Maracanã garante ao Flamengo uma casa consolidada por pelo menos duas décadas, reduzindo a urgência de um novo empreendimento. “Já tenho meu próprio estádio por duas décadas, pois detenho a concessão do Maracanã. Não vamos abrir mão dele”, completou.

Juros bancários são principal obstáculo

O primeiro fator que pesa contra o início das obras é o atual cenário econômico. A taxa Selic, hoje em 15%, é considerada inviável para um projeto de grande porte financiado por empréstimos.

Na avaliação da diretoria, construir o estádio nas condições atuais geraria um custo excessivo apenas com juros. “Hoje, o Brasil tem uma das taxas de juros mais altas do mundo”, disse Bap.

Segundo ele, um estádio do Flamengo teria custo superior a 500 milhões de euros, com juros anuais estimados em 75 milhões de euros. “Eu teria que pagar quase dois Lucas Paquetá por ano em juros. Por que eu faria isso se tenho o Maracanã?”, questionou, citando o meia Lucas Paquetá.

Estudo da FGV estima custo bilionário

Um estudo encomendado pelo clube à Fundação Getulio Vargas estimou o custo final do estádio em R$ 2,66 bilhões, considerando inflação, contingências e insumos.

A atual diretoria avalia que seria possível reduzir esse valor para cerca de R$ 2,2 bilhões, mas, ainda assim, considera o investimento elevado diante do retorno financeiro atual proporcionado pelo Maracanã.

Maracanã se tornou altamente lucrativo

O segundo pilar da decisão rubro-negra é o desempenho financeiro com jogos no Maracanã. Segundo dados apresentados em reunião do Conselho Deliberativo, o Flamengo praticamente dobrou sua arrecadação anual com bilheteria.

A receita passou de R$ 44,5 milhões em 2024 para R$ 88,2 milhões em 2025. Além disso, o clube começou a registrar lucros superiores a R$ 3 milhões por partida no estádio.

Entre os exemplos citados estão a vitória por 2 a 0 sobre o São Paulo, com lucro de R$ 3.064.971,11, e os empates com Grêmio e Cruzeiro, que renderam mais de R$ 3 milhões cada. O triunfo por 3 a 2 sobre o Santos também superou essa marca.

Jogos da Libertadores também reforçaram receita

Embora a Conmebol não divulgue os borderôs detalhados da Libertadores, o Flamengo estima que manteve margens de lucro entre 50% e 60% nas partidas.

Com base nessas médias, o clube avalia ter arrecadado mais de R$ 3 milhões nos jogos contra Estudiantes, nas quartas de final, e Racing, na semifinal, cujas receitas brutas ultrapassaram R$ 6,6 milhões e R$ 9,7 milhões, respectivamente.

Mudança de gestão elevou margem de lucro

De acordo com Bap, a diferença está no modelo de gestão do estádio. “A administração anterior era dona do Maracanã e gerava uma margem de lucro de 30% por partida. Com a nossa gestão, a receita dobrou e nossa margem aumentou de 3% para 72%”, afirmou.

Ele destacou ainda que, com os juros atuais, a estratégia mais racional é manter recursos em caixa, jogar no Maracanã e preservar verba para reforçar o elenco. “Estamos faturando muito no Maracanã”, disse.

Construção impactaria planejamento esportivo

O dirigente também deixou claro que optar pela construção do estádio traria renúncias esportivas. “Se decidir construir um estádio, certamente não haverão outros Samuel Lino ou Lucas Paquetá”, afirmou, citando o atacante Samuel Lino.

Segundo ele, o projeto é de longo prazo e precisa ser sustentável. “Não posso comprometer o futuro do nosso time porque vou construir um estádio que é um projeto para 50 anos”, concluiu.

Obstáculos técnicos ainda atrasam início das obras

Além das questões financeiras, o Flamengo ainda enfrenta entraves técnicos. O clube só poderá intervir no terreno após o remanejamento da estrutura da Naturgy, que ocupa cerca de 55% da área com uma subestação de bombeamento de gás.

Em comunicado enviado ao clube em setembro de 2025, a empresa informou que o processo levará cerca de quatro anos após a definição de um novo local, responsabilidade da Prefeitura. Depois disso, ainda será necessária a descontaminação do terreno.

Decisão segue baseada em critérios financeiros

Diante desse cenário, a diretoria rubro-negra reforça que não há pressa para iniciar as obras. A construção do estádio segue como um projeto possível, mas condicionado à melhora do ambiente econômico e à garantia de que o novo modelo gere mais receita do que o Maracanã.

Até lá, o Flamengo seguirá explorando financeiramente o estádio mais rentável do país, enquanto avalia, com cautela, os próximos passos de um dos maiores projetos de sua história.

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Última atualização: 14/02/2026