Aos 26 anos, Olivia Cordeiro transformou uma trajetória marcada por violência, situação de rua e dependência química em uma conquista acadêmica. A estudante foi aprovada em primeiro lugar no curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal Fluminense (UFF) e hoje direciona sua formação para a construção de políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+.
Diagnosticada com altas habilidades e superdotação aos três anos de idade, Olivia demonstrava potencial acadêmico desde a infância. Antes mesmo de ingressar na UFF, já estudava Economia em uma instituição particular e chegou a participar de um cálculo estrutural de um viaduto para a Prefeitura de São Paulo.
Violência interrompeu os estudos
A realidade da estudante mudou aos 19 anos. Após assumir sua identidade de gênero para a família, Olivia foi expulsa de casa e, segundo seu relato, sofreu agressões físicas que resultaram em uma internação de mais de 40 dias.
Sem apoio familiar, passou a viver nas ruas da capital paulista. Durante esse período, enfrentou dificuldades para conseguir alimentação, abrigo e segurança.
"Sofri muita violência física e sexual. Não havia rotina, nem tempo para que eu pensasse em estudar", relatou.
Segundo Olivia, esse período também foi marcado pelo uso de drogas e pela convivência diária com diferentes formas de violência.
Recomeço no Rio de Janeiro
Após deixar a dependência química e conseguir um local para morar, um incêndio destruiu a residência onde vivia. Com apenas dois reais, decidiu viajar para o Rio de Janeiro para tentar ingressar na Universidade Federal Fluminense.
Enquanto aguardava o resultado do processo seletivo, voltou a enfrentar dificuldades e permaneceu em abrigos e também nas ruas.
Ela lembra que recebeu a notícia da aprovação enquanto estava acolhida em um abrigo.
"Quando saiu o resultado, eu estava em um abrigo. Não foi uma cena de celebração, não houve festa, nem abraço. Ainda não tinha encontrado suporte, então por vezes pensei que teria de desistir."
Apoio garantiu permanência na universidade
A história ganhou repercussão após ser divulgada pela ONG Associação Recomeçar, que organizou uma campanha de arrecadação para ajudar a estudante.
A vaquinha ultrapassou R$ 100 mil, valor destinado às despesas com moradia, alimentação, transporte e à permanência no curso, já que Olivia é responsável pelo próprio sustento.
Embora a graduação seja gratuita, ela explicou que os custos para permanecer na universidade tornavam impossível continuar os estudos sem apoio financeiro.
Objetivo é transformar realidades
Atualmente, Olivia atua como estagiária em um laboratório dedicado à prevenção da violência e afirma que pretende utilizar sua formação para desenvolver políticas públicas baseadas em evidências científicas.
O foco do trabalho, segundo ela, é reduzir a pobreza e combater a violência enfrentada pela população trans.
"Quero um futuro em que ser trans ou travesti não seja uma questão que precise ser enfrentada."
A estudante afirma que sua trajetória reforçou a importância de ampliar oportunidades para pessoas em situação de vulnerabilidade, especialmente aquelas que enfrentam discriminação e exclusão social.

