As internações por transtornos mentais e comportamentais entre crianças e adolescentes registraram forte crescimento no estado de São Paulo entre 2020 e 2025, com destaque para a faixa de 5 a 9 anos, que apresentou aumento de 98,3%. Os dados são da Secretaria de Estado da Saúde e indicam também alta significativa nos atendimentos ambulatoriais.
Além de liderarem o crescimento percentual nas internações, crianças de 5 a 9 anos também concentram o maior volume de procedimentos clínicos ambulatoriais por transtornos mentais e comportamentais. Essa faixa etária registrou o maior aumento absoluto, com acréscimo de 775,6 mil atendimentos em cinco anos.
Os dados consideram consultas, exames e tratamentos relacionados a diferentes condições, que vão desde transtornos orgânicos e uso de substâncias até quadros como esquizofrenia, transtornos de humor e do desenvolvimento. As informações têm como base registros do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS.
Segundo a professora Karina Diniz, da Unicamp, o diagnóstico precoce tem se tornado mais frequente, especialmente em casos de transtornos do neurodesenvolvimento, como autismo e deficiência intelectual. No caso das crianças mais novas, o início da vida escolar tende a evidenciar dificuldades de aprendizagem, comportamento e socialização, o que pode explicar parte do aumento.
Entre adolescentes de 10 a 14 anos, que tiveram crescimento de 78,1% nas internações, o avanço dos atendimentos está relacionado tanto a diagnósticos tardios quanto ao surgimento de novos quadros, como depressão e ansiedade.
A Secretaria de Estado da Saúde informou que o primeiro acesso ao atendimento psicológico no SUS ocorre na Atenção Básica, principalmente por meio das unidades básicas de saúde e da Rede de Atenção Psicossocial. Os Centros de Atenção Psicossocial também podem ser procurados para avaliação e acompanhamento, enquanto casos mais graves são encaminhados para tratamento hospitalar conforme a necessidade clínica.
De acordo com Elson Miranda de Azevedo, da Unifesp, o aumento dos casos já vinha sendo observado antes da pandemia de Covid-19, mas foi intensificado no período posterior. Ele destaca que mudanças sociais e a quebra de rotinas impactaram o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes, tornando-os mais vulneráveis ao sofrimento psíquico.
Fatores como alterações na estrutura familiar, redução das interações sociais e o uso excessivo de telas e redes sociais também são apontados como possíveis influências no aumento dos casos. Segundo o especialista, esses elementos podem afetar a tolerância à frustração e o desenvolvimento emocional.
Os dados mostram ainda que, na maioria das faixas etárias, os números são maiores entre meninos. Isso pode estar relacionado tanto à maior incidência de alguns transtornos quanto à resistência em buscar ajuda, já que ainda há estigma em torno da saúde mental masculina.
Especialistas alertam que a internação psiquiátrica costuma ser indicada apenas em situações graves, quando há risco à integridade do paciente ou de terceiros. Eles também destacam a necessidade de ampliar investimentos em prevenção, equipes multidisciplinares e atendimento especializado para reduzir a evolução de quadros graves.
Apesar do cenário preocupante, o aumento dos atendimentos ambulatoriais também é visto como um indicativo de ampliação do acesso ao diagnóstico e tratamento. Ainda assim, profissionais apontam que o tempo de espera por atendimento especializado pode ser longo, o que compromete a eficácia da intervenção precoce.
Para os especialistas, o desafio envolve não apenas o sistema de saúde, mas também questões sociais mais amplas, como o ambiente em que crianças e adolescentes estão inseridos e as perspectivas oferecidas a eles no futuro.

