A Igreja Anglicana quebrou uma tradição histórica ao empossar, nesta quarta-feira (25), a primeira mulher como arcebispa de Canterbury. A ex-enfermeira Sarah Mullally, de 63 anos, assumiu o cargo na Igreja da Inglaterra, tornando-se líder espiritual de cerca de 85 milhões de anglicanos em todo o mundo.
Cerimônia histórica reuniu autoridades e líderes religiosos
A posse ocorreu na Catedral de Canterbury, diante de cerca de 2 mil convidados. Entre os presentes estavam o príncipe William e sua esposa Kate Middleton, além do primeiro-ministro Keir Starmer e diversas lideranças religiosas.
Durante a cerimônia, Mullally tomou assento na histórica cadeira de Santo Agostinho, datada do século 13, símbolo tradicional da liderança espiritual da Igreja Anglicana.
Primeira mensagem destaca paz e compromisso
Em seu primeiro sermão como arcebispa, Sarah Mullally fez um apelo pela paz em regiões afetadas por conflitos, como Oriente Médio, Ucrânia, Sudão e Mianmar.
“Ao iniciar meu ministério hoje como arcebispa de Canterbury, digo novamente a Deus: ‘Eis-me aqui’”, afirmou.
Ela também reconheceu falhas históricas da Igreja, especialmente relacionadas à proteção de fiéis, e destacou a importância de manter compromisso com “a verdade, a compaixão, a justiça e a ação”.
Mudança histórica na Igreja Anglicana
A nomeação de Mullally marca uma transformação significativa na Igreja da Inglaterra. Antes da cerimônia, o bispo Philip Mounstephen destacou o simbolismo da mudança:
“Isso sinaliza uma enorme mudança que ocorreu na vida da Igreja.”
O cargo de arcebispo de Canterbury é considerado um dos mais antigos da tradição cristã inglesa, sendo descrito como “mais antigo que a coroa”.
Contexto de renúncia do antecessor
A posse ocorre após a saída de Justin Welby, que renunciou em novembro de 2024. Ele foi criticado por não comunicar à polícia denúncias de abuso físico e sexual envolvendo um voluntário ligado à igreja.
O episódio reforçou a necessidade de mudanças internas e maior rigor na condução de casos sensíveis dentro da instituição.
Tensões internas e busca por unidade
A escolha de Mullally também ocorre em meio a tensões dentro da comunhão anglicana global, especialmente entre grupos progressistas e conservadores.
A nomeação enfrentou críticas do Gafcon, composto principalmente por igrejas da África e da Ásia. Apesar disso, o grupo recuou de planos de criar uma liderança paralela e optou pela formação de um novo conselho.
Outro órgão da comunhão global também abandonou a ideia de uma presidência rotativa, diante do risco de conflito institucional.
Desafios globais da liderança
O papel do arcebispo de Canterbury é considerado majoritariamente simbólico, baseado na capacidade de articulação e persuasão, diferentemente da autoridade centralizada exercida pelo papa na Igreja Católica.
Nos últimos anos, líderes anglicanos têm enfrentado desafios para equilibrar divergências sobre temas como liderança feminina e questões LGBTQ+ entre diferentes regiões do mundo.
Ainda assim, Sarah Mullally tem enfatizado a importância da unidade:
“Somos uma família com uma raiz compartilhada, e em qualquer igreja global há uma grande diversidade.”
Cerimônia reforçou diversidade e tradição
A celebração contou com elementos que destacaram o caráter global da Igreja Anglicana. Orações e leituras foram feitas em diversos idiomas, incluindo urdu, e um coral africano de mulheres participou do culto com cantos e danças.
No início da cerimônia, Mullally bateu à porta da catedral vestindo um manto com fecho inspirado no cinto que utilizava quando trabalhava como enfermeira no sistema público de saúde britânico.
Ela também utilizou um anel histórico que pertenceu ao arcebispo Michael Ramsey, presenteado pelo papa Paulo VI em 1966, simbolizando a aproximação entre anglicanos e católicos.
A posse de Sarah Mullally representa um marco na história da Igreja Anglicana, ao romper uma tradição secular e abrir espaço para maior representatividade feminina na liderança religiosa.
Ao assumir o cargo, Mullally enfrenta o desafio de conduzir uma igreja global marcada por diversidade e tensões internas, ao mesmo tempo em que busca fortalecer a unidade entre seus milhões de fiéis ao redor do mundo.

