As condições do gramado da Vila Belmiro, criticadas publicamente por Neymar e outros jogadores do Santos, são resultado de um problema que se arrasta há anos. Segundo o material, a troca do piso deveria ter ocorrido pelo menos quatro anos atrás, após alertas feitos pela empresa responsável pela instalação e manutenção do campo, a World Sports.
A necessidade de substituição foi apontada em diferentes oportunidades, mas as gestões do Santos adiaram a obra diante de outras prioridades financeiras. O gramado da Vila Belmiro foi reformado pela última vez em março de 2012 e já ultrapassou o período considerado adequado para a utilização de um campo natural.
De acordo com André Amaral, gerente comercial da SIS Pitches nas Américas e especialista em gramados híbridos, um gramado de alto nível costuma durar, em média, dez anos. Para manter melhores condições, porém, ele considera recomendável uma reforma mais profunda depois de cinco anos, com o replantio da grama e intervenções na camada superior do solo.
Com o passar do tempo, a formação de matéria orgânica no solo pode comprometer o funcionamento do sistema de drenagem. É justamente esse um dos problemas identificados na Vila Belmiro.
Enquanto a substituição definitiva não ocorre, o Santos tem adotado medidas para tentar reduzir os impactos. Entre os procedimentos estão a aplicação de fertilizantes e a aeração do solo, técnica que busca permitir maior entrada de ar, água e nutrientes.
Outra medida é a descompactação, realizada por meio de pequenas perfurações no campo para auxiliar a drenagem e reduzir a possibilidade de formação de poças. Neymar chegou a citar esse procedimento ao comentar possíveis causas para as lesões sofridas por ele e outros jogadores ainda no primeiro tempo da partida contra o Palmeiras, em 2 de setembro.
Segundo Amaral, a Vila Belmiro possui um sistema de drenagem a vácuo mais antigo, apesar de ter passado por algumas atualizações. Sistemas mais modernos contam com recursos adicionais, como iluminação e mecanismos de aquecimento ou resfriamento.
Em reunião realizada no mês passado, ficou definido que o gramado da Vila Belmiro e outros dois campos utilizados pelos profissionais no CT Rei Pelé precisarão ser substituídos. A previsão é que a reforma seja financiada com parte dos recursos de um FIDC de até R$ 100 milhões, destinado, segundo o clube, às obras de modernização do estádio, chamadas de “retrofit”.
O modelo escolhido será híbrido, com 95% de grama natural e uma parcela reduzida de fibras artificiais. O sistema é semelhante ao utilizado pelo Corinthians na Neo Química Arena. O custo inicial estimado para a reforma é de R$ 11,4 milhões, valor que o Santos atualmente não possui.
A situação financeira do clube dificulta a realização do investimento. A eliminação para o Atlético Mineiro na Copa Sul-Americana representou perda de valores que seriam obtidos com o avanço na competição continental.
Além disso, a folha salarial do Santos se aproxima de R$ 30 milhões por mês. O valor foi ampliado após cinco contratações na última janela: Rodinei, Arthur, Lima, Philippe Coutinho e Everton Cebolinha.
A diretoria argumenta que a movimentação no mercado ocorreu após uma redução de aproximadamente R$ 7 milhões mensais nas despesas entre março e setembro, provocada pela saída de dez jogadores por meio de rescisões contratuais e empréstimos.
No entanto, a contratação de Everton Cebolinha representa uma despesa relevante. Pelo acordo vigente até dezembro, com possibilidade de renovação por mais dois anos, o atacante recebe R$ 1,2 milhão por mês em salários, além de R$ 5 milhões distribuídos em luvas.
Durante a última reunião do Conselho Deliberativo, a gestão também informou que terá de pagar 48 parcelas de R$ 361 mil ao volante Zé Rafael, atualmente no Alverca, em razão do acordo de rescisão. O valor total chegará a R$ 17,3 milhões.
O Santos confirmou ainda que possui duas parcelas em atraso referentes aos direitos de imagem do elenco. Segundo o último balancete financeiro, esses valores superam R$ 15 milhões mensais.
Como medida para reduzir a dívida, os dirigentes se comprometeram com os jogadores a abater pelo menos uma parcela nesta sexta-feira (2), utilizando recursos da venda do lateral-direito JP Chermont ao Sharjah FC, dos Emirados Árabes Unidos.
As dificuldades financeiras também envolvem obrigações como o recolhimento do FGTS, que está atrasado há dois meses. O clube afirma, porém, que os salários registrados em carteira estão em dia.
A situação alcança prestadores de serviços. A World Sports, empresa responsável pelo gramado, chegou a ficar cinco meses sem receber, embora parte do débito tenha sido abatida recentemente.
Para voltar a contratar jogadores, o Santos também precisou do apoio de uma empresa da família de Neymar. A NR Sports quitou uma dívida de R$ 12 milhões com o Monaco, relacionada à contratação do meio-campista Jean Lucas, o que permitiu a retirada do “transfer ban” imposto pela Fifa.
O cenário financeiro aparece ainda no parecer do Conselho Fiscal apresentado aos conselheiros em 14 de setembro. O documento apontou que o clube encerrou o segundo trimestre com déficit contábil 62% superior ao previsto no orçamento e acumulou mais R$ 119,6 milhões em dívidas, elevando o passivo total para R$ 1,2 bilhão.

