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Golpes com dados pessoais atingem 45 milhões de brasileiros

Golpes com dados pessoais atingem 45 milhões de brasileiros

Pesquisa revela que 45 milhões de brasileiros sofreram tentativas de golpes com dados pessoais; 20% foram vítimas efetivas.

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Luis Gomes
1 de setembro de 2026
6 min de leitura
Brasil

Cerca de 45 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais, o equivalente a 32% dos usuários de internet nessa faixa etária, sofreram tentativas de golpes envolvendo seus dados pessoais. Além disso, 20% afirmaram ter sido vítimas efetivas desse tipo de crime.

Os dados fazem parte da terceira edição da pesquisa Privacidade e proteção de dados pessoais: perspectivas de indivíduos, empresas e organizações públicas no Brasil, apresentada nesta segunda-feira (31), durante o 17º Seminário de Proteção à Privacidade e aos Dados Pessoais, em São Paulo.

O levantamento foi realizado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), área do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

Realizada em dezembro de 2025, a pesquisa ouviu 2,5 mil pessoas em entrevistas online. O objetivo foi identificar como os usuários percebem questões relacionadas à privacidade, quais práticas adotam, quais riscos enfrentam e como avaliam o uso de dados pessoais por terceiros.

Aplicativos de mensagem são principal canal

Segundo Winston Oyadomari, um dos coordenadores do estudo, esta foi a primeira vez que o Cetic.br perguntou diretamente aos entrevistados se eles identificavam tentativas de golpes pela internet ou se haviam sido vítimas.

Os aplicativos de mensagem foram apontados como o principal meio utilizado nas tentativas de golpe, mencionados em 84% dos casos. Na sequência aparecem ligações telefônicas (79%), sites ou aplicativos falsos (71%), SMS (71%), e-mails (69%) e redes sociais (67%).

Oyadomari ressaltou que até mesmo pessoas com menor familiaridade com a internet e a tecnologia estão sujeitas às tentativas.

O levantamento também identificou uma diferença relacionada ao dispositivo utilizado. Pessoas que acessam a internet apenas pelo celular relataram mais tentativas por meio de sites ou aplicativos falsos do que aquelas que também utilizam computadores.

Golpes provocam impactos emocionais

As tentativas de golpe também provocaram efeitos emocionais nos usuários. Segundo o coordenador da pesquisa, estresse e mal-estar foram as reações mais citadas, com impactos também sobre familiares.

Os prejuízos não se limitam à perda de dinheiro ou ao acesso a dados bancários. O estudo aponta ainda o roubo de acesso a contas como uma preocupação.

Um exemplo citado por Oyadomari é a possibilidade de criminosos assumirem o controle do e-mail utilizado no Gov.br, o que pode comprometer o acesso a serviços públicos.

Escolaridade influencia exposição aos golpes

A pesquisa também apontou relação entre escolaridade e as situações envolvendo golpes. Usuários com menor nível de escolaridade relataram com maior frequência todas as situações analisadas.

Para Oyadomari, os resultados mostram a necessidade de discutir, além da proteção de dados, o desenvolvimento de habilidades digitais.

Segundo ele, promover uma cultura de proteção de dados precisa estar associado à capacitação dos usuários para que possam utilizar a tecnologia de forma mais segura.

Brasileiros demonstram preocupação com uso de IA

A pesquisa também investigou, pela primeira vez, a relação dos brasileiros com ferramentas de inteligência artificial generativa sob a perspectiva da privacidade.

O uso profissional ou acadêmico foi o mais citado, com 73%. Em seguida aparecem o compartilhamento de preferências e gostos pessoais, como filmes e músicas (58%), sentimentos e emoções (54%), dados de saúde, como sintomas e exames (52%), e fotos do próprio usuário ou de pessoas conhecidas (50%).

Finanças pessoais, como orçamentos e investimentos, foram mencionadas por 41%, enquanto dados pessoais, como nome, endereço, data de nascimento ou CPF, apareceram em 37% dos casos.

Entre os usuários de IA generativa, 66% disseram estar preocupados ou muito preocupados com a utilização de seus dados pessoais pelas empresas responsáveis pelas ferramentas. O percentual chegou a 72% entre pessoas com maior nível de escolaridade.

O estudo apontou ainda preocupação com o compartilhamento de dados de saúde, considerados dados pessoais sensíveis. Segundo Oyadomari, a compreensão sobre o que é feito com essas informações ainda é baixa.

Empresas mantêm dados pessoais de clientes

Entre as empresas brasileiras que participaram da pesquisa, 69% afirmaram armazenar dados pessoais de clientes ou usuários.

A biometria foi o tipo de informação mais armazenado, citada por 31% das organizações, seguida por dados de saúde, com 26%. Entre as empresas que armazenam dados, 9% disseram guardar informações pessoais de menores de 18 anos.

O levantamento apontou estabilidade na adoção de estruturas formais de governança ou adequação à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).

Entre as empresas pesquisadas, 40% realizam reuniões específicas sobre o tema, 32% contrataram consultorias ou assessorias externas especializadas, 20% mantêm uma área ou funcionários dedicados à proteção de dados e 16% nomearam formalmente um encarregado de proteção de dados (DPO).

As medidas mais citadas foram a alteração de contratos vigentes (30%), a criação de políticas para uso de dados de funcionários (29%) e o desenvolvimento de políticas de privacidade (28%).

Poder público amplia estruturas de proteção

No setor público, a pesquisa identificou avanço na presença de áreas ou responsáveis por privacidade, especialmente nos municípios.

A parcela de órgãos públicos com parte da estrutura dedicada ao tema passou de 36%, em 2023, para 42%, em 2025. O crescimento foi impulsionado principalmente por prefeituras com até 10 mil habitantes, nas quais o percentual subiu de 31% para 37%.

Entre órgãos federais e estaduais, estruturas relacionadas à privacidade estavam presentes em 100% do Ministério Público, 94% do Judiciário, 83% do Legislativo e 74% do Executivo.

Também houve aumento na implantação de políticas de segurança da informação em estabelecimentos públicos de saúde, de 24% para 28%. Nos hospitais públicos com mais de 50 leitos, o percentual chegou a 54%.

O treinamento de equipes em segurança da informação dobrou na rede pública, passando de 16%, em 2023, para 32%, em 2025.

Escolas ampliam políticas de proteção de dados

As escolas públicas também avançaram na adoção de políticas de proteção de dados e segurança da informação. A proporção de instituições com documentos contendo essas diretrizes aumentou de 37%, em 2020, para 54%, em 2025.

Entre os gestores de escolas públicas que não utilizavam programas, sistemas e plataformas na gestão escolar, 39% apontaram a preocupação com privacidade e proteção de dados como um dos principais desafios para adotar esses recursos.

Além disso, 25% dos gestores citaram a segurança de dados como motivo para não utilizar dispositivos, plataformas ou outros recursos educacionais digitais. Entre as razões estavam os riscos de vazamento ou roubo de dados dos alunos (16%) e a falta de clareza sobre o tratamento das informações nos termos de uso (15%).

A pesquisa mostrou ainda que 73% dos gestores receberam orientações da rede de ensino sobre o tratamento de dados de alunos e profissionais. Em 46% das instituições, foram realizados debates ou palestras sobre o tema, contra 32% em 2023.

Para Renata Mielli, coordenadora do CGI.br, embora os usuários precisem ter atenção às informações que compartilham, a responsabilidade pela proteção dos dados não deve ser transferida para eles.

Segundo ela, empresas e organizações públicas precisam adotar práticas de governança, transparência e segurança para garantir o uso responsável das informações e preservar os direitos das pessoas na sociedade digital.

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Última atualização: 01/09/2026