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Estudo sugere que núcleo interno da Terra pode ter parado de girar

Estudo sugere que núcleo interno da Terra pode ter parado de girar

Pesquisa indica que o núcleo interno da Terra pode ter desacelerado ou mudado o sentido de rotação, em possível ciclo natural de décadas.

Carlos HenriqueCarlos Henrique
16 de março de 2026
4 min de leitura
Internacional

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Pequim sugere que o núcleo interno da Terra pode ter desacelerado significativamente ou até interrompido temporariamente sua rotação. A pesquisa também levanta a possibilidade de que essa camada do planeta esteja passando por um processo de inversão no sentido de rotação.

A investigação voltou a ganhar destaque após ser mencionada por reportagens divulgadas anteriormente, incluindo uma análise apresentada pela CNN Brasil em 2023. Segundo os cientistas, a mudança pode fazer parte de um ciclo natural que ocorre ao longo de décadas.

Como os cientistas estudaram o núcleo da Terra

O estudo foi conduzido pelos pesquisadores Yi Yang e Xiaodong Song, da Universidade de Pequim. Para investigar o comportamento do núcleo interno, eles analisaram ondas sísmicas geradas por terremotos que atravessaram o interior do planeta desde a década de 1960.

Essas ondas sísmicas permitem que cientistas façam estimativas sobre o que acontece em regiões profundas da Terra, observando como elas se propagam ao atravessar diferentes camadas do planeta.

Com base nesses dados, os pesquisadores conseguiram inferir mudanças na velocidade de rotação do núcleo interno ao longo das últimas décadas.

Estrutura interna do planeta

A Terra é formada por várias camadas. As principais são:

crosta terrestre

manto

núcleo externo

núcleo interno

O núcleo interno sólido está localizado a aproximadamente 5.100 quilômetros abaixo da crosta terrestre. Ele é separado do manto por uma camada líquida conhecida como núcleo externo, que permite que o núcleo interno gire a uma velocidade diferente da rotação da superfície do planeta.

Com um raio de cerca de 3.500 quilômetros, o núcleo terrestre tem dimensões semelhantes às do planeta Marte. Ele é composto principalmente por ferro e níquel e concentra aproximadamente um terço da massa total da Terra.

Possível desaceleração na última década

Segundo o estudo, os registros sísmicos indicaram mudanças no comportamento do núcleo interno ao longo do tempo. Até cerca de 2009, as medições mostravam variações consistentes, o que sugeria que o núcleo interno girava a uma velocidade diferente do restante do planeta.

No entanto, dados mais recentes apresentaram um padrão diferente.

“Mostramos observações surpreendentes que indicam que o núcleo interno quase cessou sua rotação na última década e pode estar passando por um retrocesso”, escreveram os pesquisadores no estudo.

Para os cientistas, essa mudança pode indicar que a rotação do núcleo interno ficou temporariamente sincronizada com o restante da Terra, o que explicaria a aparente desaceleração observada.

Interação entre forças internas da Terra

A rotação do núcleo interno é influenciada por dois fatores principais:

o campo magnético gerado no núcleo externo

as forças gravitacionais do manto terrestre

O equilíbrio entre essas forças pode provocar mudanças graduais na velocidade de rotação do núcleo interno ao longo do tempo.

Segundo os autores do estudo, pequenos desequilíbrios entre essas forças eletromagnéticas e gravitacionais poderiam desacelerar ou até inverter o sentido de rotação do núcleo interno.

Os pesquisadores sugerem que esse processo pode fazer parte de um ciclo aproximado de 70 anos, com uma mudança semelhante ocorrendo no início da década de 1970.

Outros cientistas pedem cautela

Apesar das conclusões apresentadas no estudo, especialistas apontam que ainda há incertezas sobre o comportamento do núcleo interno da Terra.

O geofísico Hrvoje Tkalcic, da Universidade Nacional Australiana, afirmou que a análise de dados feita pelos pesquisadores é consistente, mas ressaltou que o tema ainda precisa de mais investigações.

Segundo ele, os resultados não indicam um fenômeno catastrófico.

“O núcleo interno não para completamente”, afirmou Tkalcic.

De acordo com o pesquisador, a interpretação mais provável é que o núcleo esteja girando de forma mais sincronizada com o restante do planeta do que em anos anteriores.

“Nada cataclísmico está acontecendo”, acrescentou.

Desafios para estudar o interior do planeta

Investigar o interior da Terra é uma tarefa complexa, já que essas regiões estão localizadas a milhares de quilômetros abaixo da superfície.

Por isso, cientistas dependem principalmente de métodos indiretos, como o estudo de ondas sísmicas geradas por terremotos.

Tkalcic compara o trabalho dos sismólogos ao de médicos que analisam o corpo humano com instrumentos limitados.

“Os objetos de nossos estudos estão enterrados milhares de quilômetros sob nossos pés”, explicou.

Segundo ele, embora a ciência tenha avançado significativamente, a compreensão sobre o interior do planeta ainda está em desenvolvimento.

“Apesar do progresso, nossa imagem do interior da Terra ainda está embaçada e ainda estamos no estágio de descoberta.”

Novas pesquisas ainda são necessárias

Os próprios autores do estudo afirmam que novas pesquisas e dados adicionais serão necessários para confirmar as hipóteses sobre a rotação do núcleo interno.

Estudos futuros poderão utilizar métodos mais avançados de análise sísmica e dados multidisciplinares, o que pode ajudar a esclarecer melhor como as camadas profundas da Terra interagem.

Enquanto isso, os cientistas destacam que as possíveis mudanças observadas fazem parte de processos naturais do funcionamento interno do planeta, sem representar riscos imediatos para a vida na superfície.

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#terra#estudo#nucleointerno
Última atualização: 16/03/2026