Dos 40 clubes que disputam as Séries A e B do Campeonato Brasileiro, 24 relataram atrasos em pagamentos a jogadores, funcionários ou outras obrigações financeiras, conforme os dados referentes ao primeiro semestre de 2026. Além disso, as equipes das duas divisões acumulavam aproximadamente R$ 20 bilhões em dívidas no fim de 2025, cenário que reforça o alerta sobre a saúde financeira do futebol nacional.
As informações foram divulgadas pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anserf), criada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) no início deste ano para implementar e fiscalizar as regras de fair play financeiro no país.
Clubes da Série A registram atrasos em pagamentos
Na primeira divisão, 13 dos 20 clubes apresentaram algum tipo de dívida em atraso. Desse total, nove informaram pendências relacionadas a salários de jogadores e funcionários até junho de 2026.
A lista inclui Atlético-MG, Botafogo, Corinthians, Fluminense, Grêmio, Internacional, Santos, São Paulo e Vitória.
Na Série B, 11 clubes reportaram atrasos em pagamentos a atletas ou funcionários no mesmo período: América-MG, Atlético-GO, Avaí, Ceará, Criciúma, Cuiabá, Fortaleza, Náutico, Ponte Preta, Sport e Vila Nova.
A Anserf informou que, nesta etapa, os clubes precisam comunicar a existência de pagamentos atrasados, mas não são obrigados a detalhar os valores pendentes nesse levantamento.
Outras equipes também apresentaram problemas financeiros de diferentes naturezas. O Athletico-PR não informou atrasos salariais, mas declarou pendências referentes a valores de transferências devidos a outros clubes. Já Vasco, Coritiba e Remo registraram atrasos relacionados a impostos devidos ao poder público.
Na Série B, o Goiás também relatou pendências tributárias. Entre os 11 clubes que comunicaram atrasos salariais ou de pagamentos a funcionários, a maioria possuía ainda débitos relacionados a transferências de atletas. Atlético-GO e Criciúma eram as exceções nesse grupo.
Recuperação judicial e planos de pagamento
A situação financeira também aparece no número de clubes que recorrem a mecanismos para reorganizar suas obrigações. Entre os participantes da Série A, dez estão em recuperação judicial ou seguem planos de pagamento de credores.
Na Série B, seis equipes se encontram na mesma condição, evidenciando a dimensão das dificuldades para equilibrar receitas, despesas e compromissos financeiros no futebol brasileiro.
Dívida dos clubes da Série A chega a R$ 17,34 bilhões
Além dos atrasos, os números divulgados pela Anserf mostram o tamanho do endividamento das equipes. Com dados referentes a dezembro de 2025, os 20 clubes da Série A somavam aproximadamente R$ 17,34 bilhões em dívidas.
O Atlético-MG aparece na primeira posição entre os mais endividados, com um passivo de R$ 2,21 bilhões. Desse montante, R$ 1,26 bilhão corresponde a compromissos de curto prazo, que incluem obrigações vencidas e não pagas, além de valores com vencimento geralmente previsto para até 12 meses. Outros R$ 949 milhões são classificados como dívidas de longo prazo.
O Corinthians ocupa a segunda posição, com R$ 2,08 bilhões em débitos. Desse total, R$ 699 milhões são compromissos de curto prazo, enquanto aproximadamente R$ 1,38 bilhão corresponde a obrigações de longo prazo.
Sport e Náutico lideram dívidas na Série B
Na segunda divisão, os 20 clubes acumulavam cerca de R$ 2,65 bilhões em dívidas no encerramento de 2025.
O Sport apresentava o maior endividamento, com R$ 324 milhões, sendo R$ 184 milhões de curto prazo e R$ 140 milhões de longo prazo.
O Náutico aparecia na sequência, com aproximadamente R$ 291 milhões em dívidas. Desse valor, R$ 30 milhões correspondiam a obrigações de curto prazo, enquanto R$ 260 milhões estavam classificados como compromissos de longo prazo.
Somadas, as dívidas das equipes das duas divisões alcançavam aproximadamente R$ 19,99 bilhões, valor que se aproxima de R$ 20 bilhões e evidencia o peso das obrigações financeiras sobre os clubes brasileiros.
Especialistas alertam para risco de colapso financeiro
O crescimento das dívidas e os atrasos nos pagamentos preocupam especialistas em finanças e gestão esportiva. Para Moises Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças do futebol, os números revelam uma crise mais ampla, marcada por dificuldades de liquidez e desequilíbrios recorrentes nas contas dos clubes.
Segundo Assayag, a continuidade desse cenário, sem mudanças estruturais, pode comprometer a capacidade de funcionamento das instituições e colocar em risco a sustentação econômica do futebol brasileiro.
O especialista defende medidas que enfrentem as causas do endividamento, como a repetição de déficits, a falta de disciplina financeira e a ausência de planejamento consistente. Para ele, uma reforma nos sistemas de gestão e governança dos clubes é fundamental para enfrentar o problema.
Pedro Weber, especialista em negócios no esporte, também aponta que a busca por resultados esportivos imediatos pode levar dirigentes a assumir compromissos acima da capacidade financeira das equipes.
Na avaliação de Weber, o desafio é alinhar o planejamento esportivo à realidade econômica, com controle de custos, previsibilidade de receitas e responsabilidade na utilização dos recursos. Sem essas medidas, novos investimentos podem apenas adiar as dificuldades, em vez de solucionar suas causas.
Fair play financeiro terá fiscalização mais rigorosa
O advogado Eduardo Carlezzo, especialista em direito desportivo e sócio do Carlezzo Advogados, avalia que a Anserf tem adotado uma postura inicial de orientação, com advertências e prazos para que os clubes regularizem suas pendências.
Para ele, essa abordagem é razoável durante o primeiro ano de implementação das regras. O advogado, porém, destaca que a credibilidade do sistema dependerá da aplicação uniforme das normas após o período de transição.
Carlezzo aponta o dia 30 de novembro como uma data decisiva, quando termina a transição para as dívidas anteriores a 2026. A partir desse momento, segundo ele, será fundamental que as regras sejam aplicadas com rigor a todos os clubes, independentemente do tamanho ou da relevância esportiva.
Anunciado em novembro de 2025, o fair play financeiro do futebol brasileiro está estruturado em quatro pilares: controle de dívidas em atraso, equilíbrio operacional, controle de custos com elenco e capacidade de endividamento de curto prazo.
A fiscalização das obrigações pendentes com outros clubes, atletas e autoridades tributárias está prevista para ocorrer três vezes ao ano, nos dias 31 de março, 31 de julho e 30 de novembro.
Para as dívidas assumidas a partir de 1º de janeiro de 2026, a aplicação das regras é imediata. Já os débitos anteriores ficam sujeitos ao regulamento a partir de 30 de novembro.
O sistema também prevê o registro em tempo real das informações sobre transferências e inscrições de atletas em uma plataforma desenvolvida pela CBF.
No pilar de equilíbrio operacional, os clubes deverão encerrar o ano com superávit operacional, ou seja, receitas superiores às despesas. A avaliação será realizada a cada três anos, considerando o resultado acumulado dos três exercícios financeiros mais recentes. Caso uma equipe apresente déficit em determinado ano, poderá entrar em monitoramento.
Com dívidas próximas de R$ 20 bilhões e registros de atrasos em diferentes tipos de obrigações, o futebol brasileiro enfrenta o desafio de conciliar competitividade esportiva, responsabilidade administrativa e sustentabilidade financeira. A efetividade do fair play financeiro dependerá da capacidade de corrigir desequilíbrios históricos e garantir que as regras sejam cumpridas de maneira consistente.

