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Braskem pede recuperação extrajudicial após crise em Maceió

Braskem pede recuperação extrajudicial após crise em Maceió

Braskem anuncia recuperação extrajudicial para reestruturar dívida bilionária após anos de impactos da mineração de sal-gema em Maceió.

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Ana Vívian
24 de agosto de 2026
6 min de leitura
Brasil

A petroquímica Braskem informou nesta segunda-feira (24) que vai entrar com um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar uma dívida bilionária. A empresa, que era responsável pela mineração de sal-gema em Maceió, enfrenta há anos consequências financeiras, ambientais e judiciais relacionadas à atividade, que provocou instabilidade do solo e a retirada de milhares de moradores de bairros da capital alagoana.

A mineração de sal-gema em Maceió começou em 1976, quando a empresa ainda se chamava Salgema Indústrias Químicas S/A. O minério é utilizado na fabricação de produtos como soda cáustica e PVC.

A atividade foi autorizada pelo poder público e continuou ao longo das décadas. A empresa passou por mudanças de nome e administração até chegar à denominação Braskem, adotada em 2002 após a fusão da então Trikem com outras empresas.

Rachaduras começaram a aparecer em 2018

Os primeiros sinais de uma grave crise no solo de Maceió surgiram em fevereiro de 2018, quando grandes rachaduras apareceram no bairro do Pinheiro. Uma delas chegou a 280 metros de extensão.

No mês seguinte, um tremor de magnitude 2,5 foi registrado em diversos bairros da capital. O fenômeno agravou rachaduras e crateras no solo e provocou danos considerados irreversíveis em imóveis.

A situação continuou se agravando no início de 2019. Em janeiro daquele ano, o piso de um apartamento no Pinheiro afundou de maneira repentina. Novos buracos surgiram e a Defesa Civil Municipal precisou evacuar um prédio e interditar uma rua por questões de segurança.

Meses depois, moradores dos bairros do Mutange e do Bebedouro também começaram a relatar rachaduras em imóveis. Em algumas residências, pisos cederam e paredes apresentaram grandes fissuras.

Estudo apontou relação com a mineração

Em maio de 2019, o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), órgão ligado ao governo federal, confirmou que a extração de sal-gema realizada pela Braskem havia provocado a instabilidade do solo na região.

A partir daquele momento, foram emitidas as primeiras ordens de evacuação para moradores do Pinheiro, Mutange e Bebedouro. Com o agravamento do problema, a retirada de pessoas também alcançou áreas do Bom Parto e do Farol.

Em novembro de 2019, a Braskem anunciou a decisão de fechar definitivamente os poços de extração de sal-gema em Maceió.

A empresa iniciou então um trabalho para fechamento e estabilização de 35 minas, com profundidade média de 886 metros nas regiões do Mutange e do Bebedouro. Segundo especialistas citados no material, a estabilização do solo poderia levar pelo menos dez anos.

Mais de 14 mil imóveis foram desocupados

O impacto sobre a população foi amplo. Mais de 14 mil imóveis precisaram ser desocupados, afetando aproximadamente 60 mil pessoas e transformando áreas anteriormente habitadas em regiões praticamente vazias.

Ainda no final de 2019, a Braskem criou um Programa de Compensação Financeira para indenizar proprietários dos imóveis que precisaram ser desocupados.

Moradores que discordaram dos valores oferecidos passaram a buscar a Justiça para questionar as compensações.

Em janeiro de 2022, com grande parte das áreas afetadas já desocupada, começou a demolição de cerca de 2 mil imóveis localizados na encosta do Mutange. A iniciativa fazia parte de um projeto de demolição em uma área de aproximadamente 200 mil metros quadrados.

No ano seguinte, em janeiro de 2023, a Braskem firmou acordo para ressarcir a Prefeitura de Maceió em R$ 1,7 bilhão, em razão dos prejuízos causados à capital pelo afundamento do solo.

Mina 18 entrou em colapso em 2023

A situação voltou a ganhar grande repercussão em novembro de 2023, após uma sequência de cinco tremores de terra registrados naquele mês.

A Defesa Civil de Maceió alertou para o risco de colapso de uma das minas localizada próxima à lagoa Mundaú. Moradores do Bom Parto precisaram deixar suas casas por determinação da Justiça Federal.

Em 29 de novembro, o Hospital Sanatório, localizado no Pinheiro, transferiu todos os pacientes para outras unidades de saúde, mesmo sem uma ordem específica de evacuação.

O rompimento de parte da mina 18 ocorreu em 10 de dezembro de 2023. Segundo a Defesa Civil, a cavidade foi preenchida com rocha e água da lagoa, o que levou à estabilização da área.

A gravidade do episódio levou a Prefeitura de Maceió a decretar situação de emergência. O reconhecimento pelo governo federal ocorreu em 1º de dezembro daquele ano.

Polícia Federal investigou o desastre

Também em 2023, a Polícia Federal iniciou a Operação Lágrimas de Sal, destinada a investigar possíveis crimes relacionados ao afundamento do solo nos bairros de Maceió.

Ao todo, foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão: 11 em Maceió, dois no Rio de Janeiro e um em Aracaju.

Em 2026, a Justiça Federal em Alagoas recebeu a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal contra a Braskem, ex-dirigentes e técnicos ligados à atividade de mineração.

Com a decisão, a empresa e os executivos denunciados passaram à condição de réus na ação penal que apura responsabilidades pelo desastre socioambiental.

Entre os crimes apontados pelo MPF estão poluição ambiental qualificada, elaboração e apresentação de estudos ambientais considerados falsos ou enganosos, extração irregular de recursos minerais e dano qualificado ao patrimônio.

Novos impactos foram identificados

Os efeitos da mineração também foram apontados em áreas que não estavam originalmente incluídas nos mapas oficiais de risco.

Em 2025, a Defensoria Pública do Estado de Alagoas divulgou estudo indicando que os danos poderiam ultrapassar a região diretamente afetada pelo afundamento.

O levantamento apontou indícios de afundamento do solo nos bairros Flexal de Cima, Flexal de Baixo e na Rua Marquês de Abrantes, no Bebedouro, além do Bom Parto.

Apesar de estarem fora das áreas oficiais de risco, essas regiões enfrentavam o chamado “ilhamento socioeconômico” e ainda eram habitadas.

A Defensoria pediu a desocupação dessas áreas. A Defesa Civil de Maceió, porém, informou que os locais permaneciam monitorados e que, naquele momento, não identificava indícios que justificassem a ampliação das áreas de risco ou novas realocações.

Acordos continuam sendo firmados

Os impactos financeiros relacionados ao caso também avançaram nos últimos anos.

Em novembro de 2025, a Braskem e o governo de Alagoas anunciaram um acordo de R$ 1,2 bilhão. O pagamento foi previsto para ocorrer ao longo de dez anos. Na ocasião, a empresa informou ter desembolsado R$ 139 milhões do valor acordado.

Em junho de 2025, moradores dos bairros do Farol e do Pinheiro denunciaram o aparecimento de novas rachaduras em imóveis. A Defensoria Pública estadual realizou uma vistoria nos prédios indicados.

A situação demonstra que, mesmo anos após o início das primeiras rachaduras, os efeitos da mineração continuam sendo discutidos por moradores, órgãos públicos e pela própria empresa.

Recuperação extrajudicial ocorre em meio à crise

O pedido de recuperação extrajudicial anunciado pela Braskem nesta segunda-feira acrescenta uma nova dimensão ao caso.

A medida ocorre depois de anos marcados pela desocupação de milhares de imóveis, indenizações, acordos públicos, investigações e processos judiciais relacionados à mineração de sal-gema em Maceió.

O caso também permanece sob análise da Justiça Federal, que agora conduz a ação penal envolvendo a Braskem, ex-dirigentes e técnicos ligados à atividade de mineração.

Dessa forma, a recuperação extrajudicial representa uma tentativa de reorganização financeira da empresa enquanto continuam os desdobramentos ambientais, patrimoniais e judiciais relacionados ao afundamento do solo em Maceió.

Fonte: g1

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Última atualização: 24/08/2026