Voltar para o início
Brasil vive epidemia de crimes digitais, alerta secretário

Brasil vive epidemia de crimes digitais, alerta secretário

Secretário do Ministério da Justiça alerta para uma “epidemia de crimes digitais” no Brasil, com mulheres, crianças e adolescentes entre as principais vítimas.

L
Luis Gomes
24 de agosto de 2026
4 min de leitura
Brasil

O Brasil vive uma “verdadeira epidemia de crimes digitais”, com mulheres, crianças e adolescentes entre os principais alvos, segundo Victor Fernandes, secretário nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Em entrevista à agência Lusa, ele destacou o crescimento dos crimes praticados na internet e defendeu maior colaboração das plataformas digitais com as autoridades.

O alerta é reforçado por dados do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), unidade especializada criada em 2017 para apoiar as polícias estaduais no combate a crimes praticados no ambiente virtual. O laboratório também atua em parceria com a Polícia Federal e o Ministério Público.

Ciberlab registra ocorrências de crimes digitais

Entre 2025 e 2026, o Ciberlab recebeu 143 ocorrências. Entre as classificações registradas estão casos relacionados à automutilação ou autolesão, ameaças escolares ou planejamento de atentados, violência contra pessoas em situação de rua, maus-tratos ou violência contra animais, exploração sexual infantojuvenil e crimes relacionados ao suicídio.

O coordenador do laboratório e delegado de polícia Alesandro Gonçalves Barreto ressalvou que os números não representam a totalidade dos crimes digitais registrados no Brasil. Os dados correspondem apenas às ocorrências que chegam ao Ciberlab, que atua como unidade de apoio às investigações das polícias estaduais.

Segundo Barreto, o laboratório emitiu 1.800 alertas em 2025 e outros mil no primeiro semestre deste ano. Ele também destacou a evolução constante das tecnologias utilizadas por criminosos para tentar escapar da aplicação da lei.

Governo identifica páginas com manipulação de imagens

A Secretaria Nacional de Direitos Digitais identificou, no primeiro levantamento online realizado desde a entrada em vigor, em maio, do decreto de proteção da mulher no ambiente digital, 80 páginas que oferecem serviços de manipulação de imagens de mulheres por inteligência artificial.

Os endereços foram encaminhados à Polícia Federal e à Agência Nacional de Proteção de Dados para análise e eventual adoção de medidas de investigação, preservação de registros e bloqueio.

Anteriormente, a secretaria havia identificado 32 aplicativos com funcionalidades semelhantes disponíveis nas lojas da Apple e do Google. As plataformas foram notificadas e os aplicativos posteriormente removidos e tornados indisponíveis.

Segundo Victor Fernandes, alguns desses serviços são comercializados em grupos fechados, com pagamentos realizados por Pix e criptoativos. Para o secretário, há indícios de uma cadeia financeira sofisticada associada a parte desse ecossistema.

Plataformas são consideradas essenciais no combate

Victor Fernandes defendeu uma participação mais ativa das plataformas digitais no enfrentamento aos crimes virtuais. Segundo ele, as empresas têm acesso aos conteúdos e aos rastros digitais deixados pelos criminosos, podendo colaborar com as autoridades na identificação dos responsáveis.

O secretário destacou que a cooperação é necessária para remover conteúdos, preservar provas e fornecer informações às autoridades.

Para Alesandro Barreto, as empresas também precisam participar das discussões sobre o combate aos crimes digitais e aperfeiçoar os mecanismos de moderação.

“As empresas devem sentar também na mesma mesa”, afirmou.

Segundo o coordenador, o combate não pode ficar restrito às polícias e ao Ministério Público, já que a rapidez na atuação pode ser fundamental para proteger vítimas.

ECA Digital amplia obrigações das plataformas

Entre as medidas adotadas para proteger crianças e adolescentes está o ECA Digital, Estatuto da Criança e do Adolescente no ambiente da internet.

Com a mudança, as plataformas passaram a ter no Brasil obrigações legais mais amplas para comunicar crimes contra crianças e adolescentes às autoridades brasileiras, independentemente da nacionalidade das empresas.

A obrigação inclui crimes como aliciamento e extorsão sexual. Decretos posteriores também estabeleceram a comunicação de outros crimes praticados no ambiente digital, incluindo crimes de ódio, racismo e terrorismo.

Antes da mudança, empresas norte-americanas que atuavam no Brasil comunicavam casos de abuso e exploração sexual infantil ao National Center for Missing and Exploited Children (NCMEC), nos Estados Unidos. Posteriormente, os dados eram compartilhados com a Polícia Federal brasileira por meio de cooperação voluntária.

Segundo Victor Fernandes, a Polícia Federal recebeu 960 mil relatórios de crimes de abuso e exploração sexual infantil em 2025, número 25% superior ao registrado em 2024.

Adolescentes também aparecem entre os envolvidos

Outro fenômeno identificado pelo Ciberlab é a participação de adolescentes cada vez mais jovens em crimes de ódio. Segundo Alesandro Barreto, há registros de menores que aliciam outros menores, inclusive envolvendo jovens de 12 anos.

O coordenador relaciona o cenário ao aumento do uso da internet durante a pandemia de covid-19. Segundo ele, os criminosos aproveitaram a maior presença das pessoas no ambiente virtual para ampliar o alcance de suas ações.

Barreto também relatou que alguns jovens envolvidos em crimes graves tratam essas ações como etapas de um jogo, inseridos em uma “realidade paralela” na qual precisam “passar fases”, sem compreender plenamente as consequências.

O cenário, segundo os representantes do Ministério da Justiça, reforça a necessidade de atuação conjunta entre autoridades, plataformas digitais e sociedade para prevenir crimes e proteger pessoas vulneráveis no ambiente virtual.

Tags

#crimes#digitais#brasil#ministério#da#justiça#ciberlab#crianças#e#adolescentes
Última atualização: 24/08/2026